A burla

Manuel Gouveia

A 11 de Novembro de 2022 realizou-se a Assembleia Geral da TAP onde o Estado levou o capital existente da companhia a zero, transformando em lixo os 5% de acções que os trabalhadores da TAP detinham na empresa.

Não é a primeira vez que os trabalhadores são burlados num processo de privatização. Mas, até para ajudar a perceber o ódio de tantos ao PCP, importa recordar quem alertou e falou verdade aos trabalhadores quando o governo, em 2016, avançou com a burla. Citamos o comunicado da Célula do PCP na TAP em Julho de 2016:

«Essa venda é uma burla e uma armadilha:

- Com este convite, o Governo quer fazer dos trabalhadores da TAP cúmplices do processo de privatização;

- A eventual compra destas acções por parte dos trabalhadores representaria uma transferência de alguns milhões de euros dos bolsos dos trabalhadores para os capitalistas a quem o governo entregou a TAP, numa operação onde o risco de volatização desse dinheiro é gigantesco;

- O Governo quer criar a ilusão que é através destes 5% do capital que os trabalhadores defendem os seus interesses, que passam a ser parte da gestão e da divisão de lucros, e que asseguram que os capitalistas ficam em minoria, apesar do modelo desenhado pelo Governo garantir o controlo da empresa a essa minoria mesmo antes de um qualquer aumento de capital que altere essa proporção.

Tudo isto são armadilhas e ilusões, já apresentadas diversas vezes aos trabalhadores em vários processos de privatização. Esses 5% «para os trabalhadores» foram colocados na lei das privatizações exactamente para facilitar as privatizações.

A defesa dos direitos dos trabalhadores só pode ser alcançada pela acção dos próprios trabalhadores e através das suas próprias organizações independentes. E a defesa do interesse nacional só pode ser assegurado através da propriedade pública dos sectores estratégicos e de um poder político colocado ao serviço dos trabalhadores e do povo português. Tudo o resto são ilusões...»

A maioria dos trabalhadores da TAP (94%) não participou na compra de acções, ao contrário do que a comunicação social tentou então fazer crer. Mas aqueles que o fizeram foram autenticamente burlados pelo governo português.

Na altura disseram que o PCP tinha preconceitos ideológicos. Afinal, era ideologia de classe.




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