Crimes sem castigo

Luís Carapinha

Em 2019 Mike Pompeo, então secretário de Estado da administração Trump, afirmou com regozijo, evocando a sua prestação passada: «Eu era o director da CIA. Mentimos, enganámos e roubámos. Tivemos cursos completos de formação.» Acrescentando à audiência da Universidade do Texas: «isto lembra-vos a glória da experiência americana.»

Agora, em entrevista recente à CNN, foi a vez de John Bolton, antigo Conselheiro de Segurança Nacional de Trump, chamar a si os galões da participação no planeamento de golpes de Estado made in USA. Admite-se que o golpe no Brasil que acabou por instalar Bolsonaro no poder e o golpe na Bolívia que depôs Evo Morales constem da lista de serviços de que se vangloriou Bolton. Mas também, nas palavras do próprio, o golpe fracassado de 2019 contra a Venezuela bolivariana, culminando na incrível farsa do reconhecimento de Guaidó como presidente legítimo (para o qual se prontificaram para contribuir um conjunto minoritário de países subservientes, incluindo Portugal). Mais do que o registo de confissão impenitente, ressalta o sentimento de total impunidade dos dois ex-altos funcionários do imperialismo norte-americano.

É claro que a comunicação social dominante foi muito indulgente com as revelações de Pompeo e Bolton, ou não fossem os EUA o putativo sol da democracia no mundo. Os incansáveis colunistas do pensamento único sabem bem a quem servem, nestes tempos turbulentos em que se pretende fazer vingar a requentada narrativa da batalha mundial sem quartel entre «democracias» e «autocracias»… Vem isto a propósito de novas revelações sobre o apego democrático do intervencionismo dos EUA. Concretamente, da utilização pelo Pentágono de programas secretos para conduzir guerras por procuração em África, Médio Oriente, na Ásia-Pacífico, e sabe-se lá mais onde (https://theintercept.com/2022/07/01/pentagon-127e-proxy-wars).

Sob o escudo enganador do contra-terrorismo, o programa clandestino de «operações 127e», trata de fazer o serviço sujo por mãos alheias, através de forças regulares e irregulares dos países-alvo, sob o escrutínio de equipas de operações especiais dos EUA no terreno. «Os parceiros das [operações] 127e são enviados para missões dirigidas pelos EUA, visando inimigos dos EUA para atingir os objetivos dos EUA». Esclarece ainda a investigação acima citada que a «informação básica destas missões – do seu local, frequência, alvos e das forças estrangeiras em que os EUA se suportam para as conduzir – é desconhecida, até mesmo para a maioria dos membros de comités relevantes do Congresso e funcionários-chave do Departamento de Estado». Algo passível, para além dos problemas levantados de supervisão, de «violar a Constituição dos EUA».

Quem sabe se o programa 127e – ou algum parente próximo – não passou também pela Ucrânia, onde os grupos neonazis serviram de tropa de choque do golpe de Estado de 2014, e hoje os EUA travam uma guerra por procuração contra a Rússia? Entende-se o silêncio mediático. Parafraseando Madaleine Albright, dir-se-ia que em nome da «democracia» todas as atrocidades compensam. Eis o «mundo baseado em regras» que os EUA e a NATO querem fazer vigorar. Convém, contudo, que se acautelem. A impunidade não dura sempre.

 



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