Quem modera os moderadores?

António Santos

Na passada segunda-feira os donos do Twitter anunciaram a venda da rede social a Elon Musk, que, confirmando-se a expectável benevolência dos reguladores americanos, passará a deter o controlo absoluto sobre aquilo a que chamou a maior «praça pública» virtual do mundo, onde se informam, formam e debatem 300 milhões de pessoas.

Foi aliás no Twitter que, em Outubro do ano passado, o director do programa alimentar da ONU, David Beasley, desafiou o bilionário sul-africano a doar 6 mil milhões de dólares para, «uma vez sem exemplo» salvar as vidas de 42 milhões de seres humanos a morrer de fome no mundo. Musk, num momento não têm pão comam bolos, respondeu que o faria se a ONU fosse capaz de lhe explicar como é que tanto dinheiro poderia salvar vidas. Beasley apressou-se a enviar um orçamento detalhado, mas o bilionário nunca cumpriu a promessa. Mas esta semana, não hesitou em pagar 44 mil milhões de dólares para comprar uma empresa que perde dinheiro há 11 anos consecutivos.

Para além de aumentar as receitas provenientes de conteúdos pagos, o dono da Tesla e da Space-X prometeu acabar com a censura no Twitter. São duas caras da mesma moeda: a amoralidade do dinheiro como bitola única do que pode ser lido. O que para Elon Musk foi menos um negócio do que um instrumento de poder. A forma como 300 milhões de pessoas comunicam decidida arbitrariamente por uma única pessoa, em função das suas opiniões, dos seus interesses e dos seus caprichos. Musk decidirá como moderar as discussões no Twitter, mas quem moderará o moderador? O grau de sofisticação democrática da alta tecnologia parou algures no ancien regime.

O capitalismo é isto: um homem poder decidir gastar 44 mil milhões de dólares a comprar uma coisa. Ter esse homem a liberdade de não os gastar a salvar a vida de 44 milhões de seres humanos. Trezentos milhões de seres humanos que usam essa coisa não terem qualquer palavra a dizer sobre as regras do seu funcionamento. E 42 outros milhões de homens e mulheres morrerem de fome porque a liberdade de 42 milhões de pobres viverem vale menos que a liberdade de um só rico comprar uma coisa.




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