Luta continua no Sudão

Carlos Lopes Pereira

Yusef Ab­de­lhamid, de 16 anos, foi morto a tiro pelas forças po­li­ciais, quando par­ti­ci­pava, no do­mingo, 21, em Om­durman, ci­dade gémea de Cartum, nas mar­gens do Nilo, num pro­testo contra os mi­li­tares gol­pistas. O Co­mité dos Mé­dicos do Sudão re­velou que o jovem foi a qua­dra­gé­sima-pri­meira ví­tima mortal da re­pressão desde o golpe de Es­tado de 25 de Ou­tubro li­de­rado pelo ge­neral Abdel Fattah al-Burhan.

A si­tu­ação é com­plexa no Sudão, um dos mai­ores países da África.

Quase um mês de­pois do golpe que der­rubou o go­verno civil-mi­litar de tran­sição, os ge­ne­rais gol­pistas re­co­lo­caram à frente do exe­cu­tivo o pri­meiro-mi­nistro der­ru­bado, Ab­dallah Hamdok, que se en­con­trava desde então em prisão do­mi­ci­liária.

A ali­ança de par­tidos po­lí­ticos, as­so­ci­a­ções e grupos civis que apoiava o an­te­rior ga­bi­nete re­jeitou o acordo im­posto a Hamdok por al-Burhan, que se au­to­pro­clamou pre­si­dente de um re­con­fi­gu­rado Con­selho So­be­rano, a ins­tância má­xima até às elei­ções, pre­vistas só para 2023, e chefe das Forças Ar­madas. E até mesmo 10 mi­nis­tros do der­ru­bado go­verno tran­si­tório, en­tre­tanto li­ber­tados, de­mi­tiram-se dos seus cargos.

As Forças da Li­ber­dade e da Mu­dança con­si­deram o acordo uma «traição» e a As­so­ci­ação de Pro­fis­si­o­nais, outra das im­pul­si­o­na­doras dos pro­testos, ma­ni­festou também a sua re­jeição «total e com­pleta» ao pacto as­si­nado por Hamdok, um eco­no­mista ben­quisto por al­guns sec­tores su­da­neses, go­vernos oci­den­tais e or­ga­ni­za­ções como o Fundo Mun­dial In­ter­na­ci­onal.

No mo­mento em que os mi­li­tares gol­pistas e o re­con­du­zido chefe do «go­verno de tec­no­cratas» as­si­navam o acordo – que prevê a li­ber­tação dos presos po­lí­ticos e a in­ves­ti­gação dos crimes co­me­tidos pelas forças de se­gu­rança no úl­timo mês, com de­zenas de mortos e nu­me­rosos fe­ridos – a po­lícia con­tinha com gra­nadas de gás la­cri­mo­géneo mi­lhares de ma­ni­fes­tantes junto aos por­tões do pa­lácio pre­si­den­cial, na ca­pital, que exi­giam o re­torno dos civis ao poder.

Em De­zembro de 2018 a su­bida do preço do pão de­sen­ca­deou no Sudão pro­testos po­pu­lares contra a po­breza e o de­sem­prego, com mi­lhares de pes­soas nas ruas, em Cartum e nou­tras ci­dades. Em me­ados do ano se­guinte, pres­si­o­nados pelas ma­ni­fes­ta­ções, os mi­li­tares de­pu­seram o pre­si­dente Omar al-Ba­chir, no poder há 30 anos. Se­guiram-se ne­go­ci­a­ções entre as or­ga­ni­za­ções po­lí­ticas de­mo­crá­ticas e os lí­deres das forças ar­madas, que re­sul­taram num go­verno de tran­sição civil-mi­litar, der­ru­bado há um mês e agora re­posto em parte por al-Burhan.

Nestas grandes lutas de massas par­ti­cipa ac­ti­va­mente desde o pri­meiro mo­mento, o Par­tido Co­mu­nista Su­danês, com glo­ri­osas tra­di­ções com­ba­tivas pela li­ber­dade e de­mo­cracia no país. Face aos re­centes acon­te­ci­mentos, os co­mu­nistas con­de­naram o golpe e ins­taram todas as forças de­mo­crá­ticas a par­ti­cipar em greves e ac­ções de de­so­be­di­ência civil para der­rotar a junta mi­litar. «Tra­ba­lhemos juntos para cons­truir uma ampla frente contra a di­ta­dura e pela de­mo­cracia», ape­laram, in­sis­tindo na exi­gência de um go­verno civil.




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