Luta continua no Sudão
Yusef Abdelhamid, de 16 anos, foi morto a tiro pelas forças policiais, quando participava, no domingo, 21, em Omdurman, cidade gémea de Cartum, nas margens do Nilo, num protesto contra os militares golpistas. O Comité dos Médicos do Sudão revelou que o jovem foi a quadragésima-primeira vítima mortal da repressão desde o golpe de Estado de 25 de Outubro liderado pelo general Abdel Fattah al-Burhan.
A situação é complexa no Sudão, um dos maiores países da África.
Quase um mês depois do golpe que derrubou o governo civil-militar de transição, os generais golpistas recolocaram à frente do executivo o primeiro-ministro derrubado, Abdallah Hamdok, que se encontrava desde então em prisão domiciliária.
A aliança de partidos políticos, associações e grupos civis que apoiava o anterior gabinete rejeitou o acordo imposto a Hamdok por al-Burhan, que se autoproclamou presidente de um reconfigurado Conselho Soberano, a instância máxima até às eleições, previstas só para 2023, e chefe das Forças Armadas. E até mesmo 10 ministros do derrubado governo transitório, entretanto libertados, demitiram-se dos seus cargos.
As Forças da Liberdade e da Mudança consideram o acordo uma «traição» e a Associação de Profissionais, outra das impulsionadoras dos protestos, manifestou também a sua rejeição «total e completa» ao pacto assinado por Hamdok, um economista benquisto por alguns sectores sudaneses, governos ocidentais e organizações como o Fundo Mundial Internacional.
No momento em que os militares golpistas e o reconduzido chefe do «governo de tecnocratas» assinavam o acordo – que prevê a libertação dos presos políticos e a investigação dos crimes cometidos pelas forças de segurança no último mês, com dezenas de mortos e numerosos feridos – a polícia continha com granadas de gás lacrimogéneo milhares de manifestantes junto aos portões do palácio presidencial, na capital, que exigiam o retorno dos civis ao poder.
Em Dezembro de 2018 a subida do preço do pão desencadeou no Sudão protestos populares contra a pobreza e o desemprego, com milhares de pessoas nas ruas, em Cartum e noutras cidades. Em meados do ano seguinte, pressionados pelas manifestações, os militares depuseram o presidente Omar al-Bachir, no poder há 30 anos. Seguiram-se negociações entre as organizações políticas democráticas e os líderes das forças armadas, que resultaram num governo de transição civil-militar, derrubado há um mês e agora reposto em parte por al-Burhan.
Nestas grandes lutas de massas participa activamente desde o primeiro momento, o Partido Comunista Sudanês, com gloriosas tradições combativas pela liberdade e democracia no país. Face aos recentes acontecimentos, os comunistas condenaram o golpe e instaram todas as forças democráticas a participar em greves e acções de desobediência civil para derrotar a junta militar. «Trabalhemos juntos para construir uma ampla frente contra a ditadura e pela democracia», apelaram, insistindo na exigência de um governo civil.