A vida numa redoma

Jorge Cordeiro

Cercada por um certo fundamentalismo, a vida arrisca volatizar-se. O confinamento tende a tornar-se ideologia de Estado, instrumento de dominação, fundamentação para lá das razões de saúde pública invocadas. A actividade económica e cultural, a vida em sociedade ou as múltiplas dimensões de saúde física e mental não encontram espaço no restrito mundo de estimativas, folhas de cálculo, projecções e curvas estatísticas, e outras exponenciações a que alguns insistem em reduzir a vida. Facto tão mais inquietante quanto esta concepção de vida em tubo de ensaio e redoma laboratorial contamina o poder e decisores políticos.

O confinamento, e a sua idolatração, tornou-se um poderoso instrumento ideológico, uma arma para atacar direitos e aumentar a exploração, um argumento para limitar liberdades. Cercados por critérios estritamente epidemiológicos, o que é essencial fica para segundo plano. Reforço do SNS e da estrutura de saúde pública, assegurando a interrupção das cadeias de contágio por via do rastreio e da testagem massiva, vacinação rápida de todos os portugueses ou a retoma das actividades, definindo com clareza as medidas de protecção de saúde e os apoios à sua implementação, soçobram submersos e ameaçados por modelos matemáticos, quadrantes coloridos e cruzes que aí se movimentam. É a vida suspensa, e ameaçada, no estrito sobe e desce de duas variáveis: número de contágios e o «famoso», e de costas largas, Rt. Esperamos que neste fundamentalismo confinante não tenha escapado a tantos matemáticos que num quadro de reduzido número de contágios, qualquer variação nestes, por menor que seja, se reflecte com expressão acrescida naquele indicador. Fica a prevenção para que se não permita que projectos restritivos se façam à sombra de esquemas e de uma responsabilização de comportamentos individuais para esconder a ausência de respostas.




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