Uma década de guerra imperialista

Ângelo Alves (Membro da Comissão Política)

Com­pleta-se este ano uma dé­cada sobre o início das agres­sões im­pe­ri­a­listas à Líbia e à Síria. Como sempre, o tempo ajuda a per­ceber a es­sência dos pro­cessos e hoje são ainda mais vi­sí­veis as con­sequên­cias e a na­tu­reza da­queles crimes.

Este con­tinua a ser o tempo de con­denar a agressão im­pe­ri­a­lista à Síria

Es­tá­vamos em 2011, as Pri­ma­veras árabes eram-nos apre­sen­tadas como re­vo­lu­ções que iriam mudar e de­mo­cra­tizar todo o mundo árabe. As con­sequên­cias so­ciais da crise eco­nó­mica do ca­pi­ta­lismo, o au­mento ex­po­nen­cial do preço dos bens ali­men­tares (que na­queles países eram e são em grande me­dida im­por­tados), o au­mento brutal do de­sem­prego em so­ci­e­dades muito jo­vens, foram, entre ou­tras, as causas de vá­rias re­voltas em va­ri­ados países, al­guns deles fér­reas di­ta­duras ali­nhadas com os EUA.

Nos casos da Tu­nísia e do Egipto, as po­tên­cias im­pe­ri­a­listas des­do­braram-se em ma­no­bras de bas­ti­dores para re­agir e con­trolar os acon­te­ci­mentos de modo a manter o es­sen­cial da sua in­fluência e do­mínio. Nos casos do Iémen e do Bah­rein, a so­lução foi pro­teger e dar força ao es­ma­ga­mento, pela força, da con­tes­tação po­pular, no­me­a­da­mente com o en­vol­vi­mento di­recto da Arábia Sau­dita na vi­o­lenta re­pressão.

Neste pro­cesso exis­tiam dois países que fu­giam ao con­trolo do im­pe­ri­a­lismo – Líbia e Síria – e que ob­jec­ti­va­mente cons­ti­tuíam fac­tores de re­sis­tência aos planos do Grande Médio Ori­ente do im­pe­ri­a­lismo e do si­o­nismo, in­cluindo re­la­ti­va­mente à cen­tral questão pa­les­ti­niana. Já então «pre­o­cu­pados» com novas re­a­li­dades que emer­giam na si­tu­ação in­ter­na­ci­onal – com as po­tên­cias emer­gentes a de­sen­vol­verem cada vez mais re­la­ções co­mer­ciais, no­me­a­da­mente em torno de re­cursos ener­gé­ticos com países da re­gião –, os EUA, e também a União Eu­ro­peia, agiram não só para im­pedir que as re­voltas re­dun­dassem em perda de in­fluência e do­mínio na re­gião como, nos casos da Líbia e da Síria, op­taram por uma es­tra­tégia de «contra-ofen­siva» por via da de­ses­ta­bi­li­zação, in­ge­rência e guerra.

Guerras im­pe­ri­a­listas

O tempo con­firmou essa tese. Não que não hou­vesse pro­blemas eco­nó­micos e so­ciais na­queles países. Exis­tiam e em parte re­sul­taram de de­sas­trosos acordos com o FMI e com a União Eu­ro­peia (como no caso da Líbia) e/​ou de po­lí­ticas de pri­va­ti­zação e ataque a di­reitos so­ciais, como no caso da Síria. Con­tudo, é ne­ces­sário re­cordar que a Líbia era um dos países do con­ti­nente afri­cano com maior PIB per ca­pita da re­gião e que hoje está com­ple­ta­mente des­truído e en­tregue a inú­meros grupos cri­mi­nosos com o seu povo a viver na mi­séria.

E é igual­mente im­por­tante re­cordar que a Síria era um dos poucos re­gimes laicos do Médio Ori­ente com im­por­tantes di­reitos so­ciais cons­ti­tu­ci­o­nal­mente ga­ran­tidos e con­si­de­rado um país de «ren­di­mentos mé­dios». Hoje é um país di­la­ce­rado pela guerra onde 400 mil pes­soas mor­reram, em que 5,6 mi­lhões de pes­soas são re­fu­gi­ados de guerra no ex­te­rior, onde seis mi­lhões são des­lo­cados in­ternos, onde as que­bras acu­mu­ladas do PIB to­ta­lizam 1,3 bi­liões de dó­lares e onde, de­vido também aos efeitos da COVID-19, cerca de 60% da po­pu­lação sofre ca­rên­cias ali­men­tares.

Tratou-se de dois crimes bru­tais, que nada ti­veram que ver com di­reitos ou de­mo­cracia, tal como então aler­támos. O que es­teve e está em causa é o do­mínio im­pe­ri­a­lista na re­gião e para isso valeu tudo, in­cluindo armar, treinar e fi­nan­ciar grupos ter­ro­ristas, os mesmos que ser­viram e servem de pre­texto para o re­a­cender da guerra contra a Síria pela ad­mi­nis­tração Biden.

Tal como há dez anos este con­tinua a ser o tempo para con­denar, sem ti­bi­ezas, a agressão à Síria e de­mons­trar so­li­da­ri­e­dade a todos os que re­sistem a um dos mai­ores crimes im­pe­ri­a­listas da ac­tu­a­li­dade.




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