O incómodo
As comemorações do Centenário do PCP irritaram alguns.
Houve quem tenha ocultado o verdadeiro motivo do incómodo, recorrendo às mesmas atoardas lançadas no ano passado contra o XXI Congresso ou a Festa do Avante!. Voltaram a falar dos privilégios do PCP, por mais que os direitos que tenha exercido nessa ocasião não estejam a ser – nem possam ser! – negados a mais nenhuma força política. Manifestaram uma vez mais as suas preocupações com os riscos para a saúde pública, agora a propósito das mais de 100 acções realizadas no dia 6, por mais que estas tenham sido irrepreensíveis ao nível da segurança sanitária, como aliás se esperava que fossem, dadas as experiências anteriores. Outros, mais criativos (ou delirantes, como o leitor preferir), mostraram-se desta feita ofendidos, chocados, horrorizados pelos danos que as milhares de bandeiras vermelhas hasteadas nas ruas, avenidas e praças do País terão provocado… na paisagem.
Mas houve também quem tenha dito abertamente o que os outros só pensaram, indo directo ao assunto: o que os incomoda é mesmo o PCP ser o que é! E compreende-se, pois este teima em persistir, num evidente desafio às mil e uma certidões de óbito que lhe passaram ao longo do último século.
Ainda o PCP estava em formação e já o matavam uma primeira vez, com o golpe de 28 de Maio a enterrar a República e a impor a ditadura, que rapidamente ganhou forma e conteúdo fascistas. A sua segunda morte foi decretada no final da década de 30, no momento em que a repressão capturou os principais dirigentes e desmantelou as tipografias. Mataram novamente o PCP em 1949, quando o fascismo então sustentado pelos seus novos amigos norte-americanos e britânicos, prendeu Álvaro Cunhal e assim o pretendia manter para sempre.
Na década de 60, houve quem tenha visto no surgimento de grupelhos esquerdistas e m-l uma ameaça mortal ao PCP, que voltaria a morrer no final de 1975, na sequência do golpe contra-revolucionário de 25 de Novembro. Com a entrada na então CEE, a destruição da Reforma Agrária, as privatizações e a desindustrialização, apressaram-se a passar uma nova sentença de morte, reafirmada pouco depois, quando a União Soviética desapareceu e, com ela, o campo socialista europeu. Por mais que as previsões tenham falhado todas, umas atrás das outras, não deixaram de continuar a matar o PCP...
Estes coveiros confundem desejos com realidade e parecem não se aperceber do que é feito este partido centenário, da atractividade do seu projecto, da vitalidade da sua militância, expressa uma vez mais – e de modo vibrante – naquelas comemorações.
Afinal, o espectro que atormentava os poderosos, de que falava o Manifesto, ainda aí anda. Para incómodo de alguns.