O candidato Goldman Sachs

Filipe Diniz

Mario Draghi, Rishi Sunak, Mario Monti, Henry Paulson, Durão Barroso, são alguns dos figurões que transitaram do gigante bancário Goldman Sachs para altos cargos políticos, ou transitaram de altos cargos políticos para lá. A lista completa – que não caberia aqui – inclui Carlos Moedas, mas isso é omitido. Trabalhou nos negócios do imobiliário.

O PSD candidata-o a Lisboa e chovem elogios nos média. Veja-se o Público (6.03.21): «uma lufada de ar para o sistema político«, «um candidato […] que promete elevar o nível da qualidade das propostas e dos programas eleitorais, assim como garantir a qualidade do debate político em torno da cidade».

Quanto à «qualidade do debate político», está já atestada: quer pôr fim ao «socialismo» na cidade. Chamar socialista à gestão Costa/Medina/Salgado garante uma campanha assente na desonestidade intelectual e política e no encenar de falsas divergências. Porque esta gestão só pode ter correspondido ao que pense um homem do Goldman Sachs.

Entregou a gestão urbanística à especulação imobiliária. Acelerou a expulsão da Lisboa popular, em particular do centro urbano e da faixa ribeirinha. Tornou o território da cidade ainda mais desigual e exclusivo em todos os aspectos, desde os económicos e sociais aos da mobilidade, da habitação, do espaço público. Parcelas de Lisboa poderão ter ficado melhor nas fotografias, ficaram piores em todas as frentes em que a vida urbana perdeu a densidade da raiz popular que sempre definiu o melhor da sua identidade.

PS e PSD tentarão encenar uma campanha eleitoral em que a «alternativa» se situe entre um e outro. Não são alternativa na cidade, como não o são no País. Lisboa não está condenada a escolher entre a linha Goldman Sachs e outra do mesmo calibre. O confronto, essencial e decisivo, é entre a Lisboa popular e do trabalho e a Lisboa da especulação e da exclusão. Moedas está há muito do lado errado, o mesmo em que está a gestão Medina.




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