5 dias, 100 anos

Filipe Diniz

Já era de esperar, dadas as debilidades e contradições da situação nacional. Mas a coisa exacerba-se com os 100 anos do PCP: a gritaria anticomunista não só sobe de tom como muda o discurso de alguns que antes arvoravam «objectividade». Num mesmo jornal (Público, 27.02.2021), por exemplo, António Barreto despeja falsificações e insultos, e Pacheco Pereira acusa o PCP de manipular a sua história (enquanto elogia o «trabalho» de Stephane Courtois, o que diz muito sobre a história que quereria fazer).

A questão central é simultaneamente de conjuntura («o governo de emergência», de «iniciativa presidencial» ou outro, desde que remeta o PCP para o gueto de onde nunca deveria ter saído) e de fundo: a sociedade que defendem é cada vez mais insustentável e temem uma alternativa que os povos façam sua.

Para a ideologia burguesa a conjuntura é a história: o confronto conjuntural manipula e elide o tempo histórico, arruma com a história. Não poderiam entender o significado presente de um centenário. Para nós, marxistas, o tempo histórico é central, e esse tempo tem múltiplas durações e dinâmicas. Em Janeiro de 1918 Lénine, dirigindo-se ao Terceiro Congresso dos Sovietes, destaca que este se realiza «2 meses e 15 dias decorridos desde a formação do poder soviético», «apenas 5 dias mais» do que os 72 dias da Comuna de Paris. Para o grande revolucionário 5 dias constituíam uma vitória histórica de primeiro plano. Mudar o mundo de cima a baixo é conquista dia a dia, ao mesmo tempo que uma tarefa de muito longa duração, mais longa do que os nossos clássicos teriam previsto.

O que eles sabiam é que na longa duração do tempo histórico se verificam saltos. Fulgurantes saltos em frente – e também dramáticos retrocessos. Uns e outros têm raiz no tempo longo, e a sua dinâmica é a da luta das classes em presença. Permanece tarefa nossa abrir caminho a outros fulgurantes saltos em frente.




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