«A América está de volta»

Ângelo Alves

A nova Administração dos EUA aposta na confrontação geo-estratégica

A passada semana foi rica em acontecimentos que nos elucidam sobre os reais impactos da entrada em cena da nova Administração norte-americana. Se dúvidas faltassem de que o slogan «A América está de volta» - repetido até à exaustão pelo Presidente Biden e recebido com deslumbre pelos círculos do poder político e militar da NATO e da União Europeia – soa cada vez mais a ameaça de novos conflitos e a uma visão de confronto internacional de grandes dimensões, as reuniões e conferências realizadas dissiparam muitas dessas dúvidas. A reunião dos Ministros da Defesa da NATO (a primeira em que participou o novo Secretário da Defesa dos EUA), a Reunião do G7 com a participação de Biden e a sua apoteótica participação na Conferência de Segurança de Munique, demonstraram que o slogan de Biden é fundamentalmente uma visão mais globalizada da expressão «América primeiro» do seu antecessor.

O «regresso» aos Acordos de Paris, à Organização Mundial de Saúde, ao Conselho dos Direitos Humanos da ONU, estão a ser a «montra» de uma Administração supostamente comprometida com as «instituições internacionais», com o «multilateratismo» e até apostada na «diplomacia», ideia que se tenta também criar com o «regresso» dos EUA ao Acordo nuclear com o Irão - apesar de novas condições e declarações que podem ou querem inviabilizar tal «regresso» – ou com a prorrogação do Acordo START com a Federação Russa, logo seguida da campanha em torno do caso Navalny e de declarações sobre o papel da Federação Russa no Mundo que estilhaçam qualquer leve ideia de «diálogo» e «diplomacia».

A realidade é manifestamente diferente, e isso ficou muito claro. A estratégia da nova Administração Trump é a de uma confrontação geoestratégica de enorme dimensão. Os alvos foram nomeados, explicitamente, nas referidas reuniões: Rússia e China. E para tal os EUA pretendem estabelecer e reforçar a «união transatlântica», adicionando-lhe a ideia de uma «aliança das democracias» frente «às autocracias», ou seja a necessária frente para tentar inverter o declínio dos EUA, confrontar a China e olear o cerco e possível ataque à Rússia. A táctica é tão evidente que até Biden sentiu necessidade de afirmar que não se tratava de reeditar o clima da «guerra fria». Mas o facto é que é isso mesmo, e as decisões dos Ministros da Defesa da NATO comprovam-no: Aumentos de gastos militares para o patamar que Trump exigia, só que agora ainda mais rápido; tiro de partida para um novo Conceito Estratégico da NATO que defina como principais ameaças a Rússia e a China, inclua a questão ambiental e digital na esfera da «segurança», reforce a intervenção da NATO em todas as esferas políticas e sociais e integre ainda mais o pilar militarista da União Europeia na estrutura política e militar da NATO; desenvolvimento de novas e mais poderosas armas, incluindo nucleares, são apenas alguns exemplos da Estratégia NATO 2030 que deixa antever uma deriva ainda mais ofensiva e perigosa mascarada pelo regresso do «soft power» de Obama cujos resultados bem conhecemos. Pelo caminho reforça-se para já a presença militar no Iraque (recuperando-se a patranha do combate ao DAESH); mantém-se e reforça-se a presença militar da NATO (e dos EUA) na Alemanha e nas fronteiras com a Rússia a quem a UE acaba de decidir sanções usando pela primeira vez o instrumento criado em Dezembro de 2020; já não se retiram as tropas do Afeganistão em Maio e a guerra na Síria, com apoio dos EUA aos terroristas reacende-se.




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