Votos

Anabela Fino

O que não falta em Portugal, onde tanta coisa escasseia, são votos. Ele há votos de congratulação, de protesto, de condenação, de saudação, de pesar, só para citar os mais comuns, e são tão apelativos que ninguém escapa à tentação de deles usar e abusar, nem mesmo os deputados.

O exagero assumiu tal proporção que há cerca de um ano, mais coisa menos coisa, o presidente da Assembleia da República, Ferro Rodrigues, se sentiu obrigado a apelar ao «consenso político no sentido da dignificação do parlamento», solicitanto «contenção e qualificação». Por essa altura, Ferro Rodrigues informou que iria solicitar ao grupo de trabalho que estava a rever o regimento da AR que tomasse medidas nesta matéria.

Não sei que diligências foram feitas, se o foram, nem que medidas terão sido tomadas, se é que as houve, mas o sucedido a semana passada veio demonstrar que em matéria de votos a democracia portuguesa está longe de estar protegida.

Entendeu a comissão parlamentar de Defesa, maioritariamente composta por deputados do PS e do PSD, apresentar um voto de pesar pela morte do tenente-coronel Marcelino da Mata, o militar mais condecorado de sempre do fascismo, que foi vítima da COVID-19. Aprovado com votos do PS, PSD, CDS, Chega e Iniciativa Liberal, o voto de pesar foi uma espécie de cereja em cima do bolo após o funeral com a presença do Presidente da República e dos Chefes do Estado Maior das Forças Armadas e do Exército, ainda que sem honras militares.

Que a direita saudosista do passado queira homenagear os seus heróis, não admira. Mas como explicar que instituições democráticas saídas da Revolução de Abril, a Revolução que pôs fim ao fascismo e à guerra colonial, se curve à memória do militar que se distinguiu por ter assumidamente cometido crimes de guerra e actos imperdoáveis, sendo por isso armado cavaleiro da Antiga e Muito Nobre Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito, em 1969?"

Que o consulado de Cavaco Silva tenha louvado Óscar Cardoso, o inspector da PIDE e criador dos Flechas, outras tropas especiais que combateram na guerra colonial, «por serviços excecionais e relevantes», não é de espantar, tal como não surpreende que em 1994, já reformado, Marcelino da Mata ainda tenha sido promovido a tenente-coronel.

O que é de questionar é qual o motivo que leva deputados socialistas, quase meio século depois do 25 de Abril e em pleno ascenso da extrema-direita por toda a Europa, a distinguir um símbolo da política de opressão e guerra da ditadura fascista.

Erros destes costumam sair caro. Quem precisa de inimigos com amigos destes?




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