Mentira requentada

No passado dia 12, sexta-feira, uma fotografia do comício da última Festa do Avante! cobriu quase metade da primeira página do Diário de Notícias. Sim, 12 de Fevereiro, mais de cinco meses depois do sucedido. Uma opção bizarra, ainda para mais quando a Festa esteve ausente da edição do DN que se seguiu à sua realização. Mas, com a opção fotográfica da passada semana, o jornal também não pretendia redenção face ao silenciamento a que votou a realização da Festa (ao contrário do que fez no pré-Festa, quando importava alimentar a polémica), mas recuperar o ataque ao PCP a propósito da realização de iniciativas públicas.

Diz o DN que o PCP «cancela pela primeira vez um evento de grande dimensão», a propósito da substituição do comício do centenário, previsto para o Campo Pequeno para o dia 6 de Março, por 100 acções por todo o País. Logo no lead, uma mentira: aquele comício não será o primeiro que não se faz devido à epidemia. A 13 de Março de 2020, nas primeiras semanas de circulação do coronavírus em Portugal, o PCP dava conta da não realização de três iniciativas face à evolução da situação sanitária, nomeadamente o comício do Porto e o almoço do Seixal, ambos comemorativos do 99.º aniversário do Partido e ambos de «grande dimensão». A estas podemos acrescentar muitas outras iniciativas que não se realizaram, do almoço do Alentejo, logo no fim-de-semana seguinte, à profunda reformulação da campanha para as presidenciais, mais recentemente.

É esta primeira mentira que marca todo o subtexto do artigo. O DN não dá expressão ao facto de o PCP, avaliando a actual situação do País, decidir substituir o comício do centenário por um conjunto de acções por todo o País. Apresenta mesmo esta decisão como um «cancelamento», quando na verdade se trata de uma multiplicação de iniciativas, que permitirá chegar mais longe, nos locais, na participação e na expressão que estas terão naquela data histórica. O enviesamento não é novo: também não foram notícia nas páginas do DN o escrupuloso cumprimento das normas de segurança sanitária na Festa do Avante!, ou a ausência de registo de casos de COVID-19 com origem naquela ou em qualquer outra iniciativa realizada pelo PCP no último ano – incluindo no Congresso, também referido na peça.

É verdade que o DN não foi o único órgão de comunicação social a fazer este exercício, foi apenas o que mais se destacou. E o que esta onda criada em torno da não realização do comício, sempre associada à Festa e ao Congresso, é ainda sintoma do silenciamento a que as acções do PCP são votadas na generalidade da imprensa. Só passando o último ano a ignorar que, ao contrário de outros, o PCP nunca desertou do seu lugar na intervenção política é possível escrever tal coisa acerca do comício do centenário sem perder a credibilidade junto dos leitores.

Esperemos para ler a reportagem do DN sobre as 100 acções de 6 de Março. Mas se o critério seguido até aqui se mantiver, a única coisa que vamos perceber, mais uma vez, é que, mais do que a preocupações de ordem sanitária com cada iniciativa, o «problema» está em que as realiza: o PCP, com os seus 100 anos de história ao serviço dos trabalhadores, do povo e do País.



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