Para onde vão os EUA?
Os acontecimentos de dia 6 expressam as profundas contradições nos EUA
A sequência dos acontecimentos ocorridos no Capitólio, em que avulta a invasão da sede do poder legislativo dos EUA, no dia 6 de Janeiro, constitue uma expressão mais das profundas contradições e multifacetada crise que percorrem a sociedade norte-americana.
A par de outros aspectos, é digna de nota a incredulidade com que, um pouco por todo o mundo e, nomeadamente, em Portugal, os indefectíveis do poderoso establishment norte-americano se viram confrontados com a utilização de métodos de desestabilização e subversão que caracterizam a política externa do imperialismo norte-americano contra outros países e povos, e que agora estão a ser dirigidos e aplicados por parte de uma fracção da classe dominante dos EUA ao seu próprio país.
Incredulidade que não deixa de ser acompanhada pela hipócrita consideração de que as forças mais retrógradas, incluindo a extrema-direita violenta e fascizante, são inaceitáveis e condenáveis nos EUA, mas já seriam democráticas quando promovidas e apoiadas pelos EUA, NATO e UE para executarem operações de ingerência golpista e brutais agressões contra as forças, governos e países que não abdicam da sua soberania e direito ao desenvolvimento, de que são exemplo recente a Venezuela, a Síria, a Ucrânia, o Brasil, a Bolívia, a Bielorrússia, entre tantos outros.
A actual situação nos EUA, potência hegemónica do mundo capitalista, é indissociável dos persistentes problemas, desigualdades, divisões e fragmentação que marcam a sociedade norte-americana e que têm igualmente expressão na tendência de declínio relativo dos EUA no plano internacional, face à qual se verificam clivagens no seio da classe dominante quanto à melhor forma de a tentar contrariar. Uma realidade que se tem aprofundado e que o impacto económico e social da epidemia de COVID-19 colocou em evidência e elevou a um novo patamar.
Só será possível compreender a actual situação nos EUA tendo presente a desvalorização de direitos laborais e de outros direitos sociais fundamentais, a intensificação da exploração, o empobrecimento, a exclusão, o assistencialismo, o favorecimento do grande capital e a exponencial concentração da riqueza; o domínio das suas instituições por parte do capital financeiro e o complexo militar-industrial, a repressão de direitos e liberdades fundamentais, a banalização da violência e da sua forma mais brutal, a guerra; a promoção de concepções reaccionárias, o anti-comunismo, o branqueamento de forças obscurantistas, de extrema-direita, xenófobas, racistas e fascistas, que são promovidos neste país de forma sistémica.
Uma situação que a Administração Trump levou ainda mais longe, promovendo uma deriva ainda mais reaccionária e acentuando a confrontação, a ingerência e a agressão.
Importantes questões quanto à evolução próxima da situação nos EUA continuam até ao momento sem uma clara resposta. São múltiplos e contraditórios os factores em presença. É manifesta a vontade de mudança de importantes sectores da sociedade norte-americana que se mobilizaram e organizaram para assegurar a eleição de Joe Biden como Presidente. No entanto, estão por confirmar as expectativas criadas quanto a importantes medidas a serem tomadas no plano interno. Para já, a eleição de Biden corresponderá à reafirmação no plano mundial do domínio hegemónico dos EUA, com o que implica de confrontação e ameaça à paz.