Para onde vão os EUA?

Pedro Guerreiro

Os acon­te­ci­mentos de dia 6 ex­pressam as pro­fundas con­tra­di­ções nos EUA

A sequência dos acon­te­ci­mentos ocor­ridos no Ca­pi­tólio, em que avulta a in­vasão da sede do poder le­gis­la­tivo dos EUA, no dia 6 de Ja­neiro, cons­titue uma ex­pressão mais das pro­fundas con­tra­di­ções e mul­ti­fa­ce­tada crise que per­correm a so­ci­e­dade norte-ame­ri­cana.

A par de ou­tros as­pectos, é digna de nota a in­cre­du­li­dade com que, um pouco por todo o mundo e, no­me­a­da­mente, em Por­tugal, os in­de­fec­tí­veis do po­de­roso es­ta­blish­ment norte-ame­ri­cano se viram con­fron­tados com a uti­li­zação de mé­todos de de­ses­ta­bi­li­zação e sub­versão que ca­rac­te­rizam a po­lí­tica ex­terna do im­pe­ri­a­lismo norte-ame­ri­cano contra ou­tros países e povos, e que agora estão a ser di­ri­gidos e apli­cados por parte de uma fracção da classe do­mi­nante dos EUA ao seu pró­prio país.

In­cre­du­li­dade que não deixa de ser acom­pa­nhada pela hi­pó­crita con­si­de­ração de que as forças mais re­tró­gradas, in­cluindo a ex­trema-di­reita vi­o­lenta e fas­ci­zante, são ina­cei­tá­veis e con­de­ná­veis nos EUA, mas já se­riam de­mo­crá­ticas quando pro­mo­vidas e apoi­adas pelos EUA, NATO e UE para exe­cu­tarem ope­ra­ções de in­ge­rência gol­pista e bru­tais agres­sões contra as forças, go­vernos e países que não ab­dicam da sua so­be­rania e di­reito ao de­sen­vol­vi­mento, de que são exemplo re­cente a Ve­ne­zuela, a Síria, a Ucrânia, o Brasil, a Bo­lívia, a Bi­e­lor­rússia, entre tantos ou­tros.

A ac­tual si­tu­ação nos EUA, po­tência he­ge­mó­nica do mundo ca­pi­ta­lista, é in­dis­so­ciável dos per­sis­tentes pro­blemas, de­si­gual­dades, di­vi­sões e frag­men­tação que marcam a so­ci­e­dade norte-ame­ri­cana e que têm igual­mente ex­pressão na ten­dência de de­clínio re­la­tivo dos EUA no plano in­ter­na­ci­onal, face à qual se ve­ri­ficam cli­va­gens no seio da classe do­mi­nante quanto à me­lhor forma de a tentar con­tra­riar. Uma re­a­li­dade que se tem apro­fun­dado e que o im­pacto eco­nó­mico e so­cial da epi­demia de COVID-19 co­locou em evi­dência e elevou a um novo pa­tamar.   

Só será pos­sível com­pre­ender a ac­tual si­tu­ação nos EUA tendo pre­sente a des­va­lo­ri­zação de di­reitos la­bo­rais e de ou­tros di­reitos so­ciais fun­da­men­tais, a in­ten­si­fi­cação da ex­plo­ração, o em­po­bre­ci­mento, a ex­clusão, o as­sis­ten­ci­a­lismo, o fa­vo­re­ci­mento do grande ca­pital e a ex­po­nen­cial con­cen­tração da ri­queza; o do­mínio das suas ins­ti­tui­ções por parte do ca­pital fi­nan­ceiro e o com­plexo mi­litar-in­dus­trial, a re­pressão de di­reitos e li­ber­dades fun­da­men­tais, a ba­na­li­zação da vi­o­lência e da sua forma mais brutal, a guerra; a pro­moção de con­cep­ções re­ac­ci­o­ná­rias, o anti-co­mu­nismo, o bran­que­a­mento de forças obs­cu­ran­tistas, de ex­trema-di­reita, xe­nó­fobas, ra­cistas e fas­cistas, que são pro­mo­vidos neste país de forma sis­té­mica.

Uma si­tu­ação que a Ad­mi­nis­tração Trump levou ainda mais longe, pro­mo­vendo uma de­riva ainda mais re­ac­ci­o­nária e acen­tu­ando a con­fron­tação, a in­ge­rência e a agressão.

Im­por­tantes ques­tões quanto à evo­lução pró­xima da si­tu­ação nos EUA con­ti­nuam até ao mo­mento sem uma clara res­posta. São múl­ti­plos e con­tra­di­tó­rios os fac­tores em pre­sença. É ma­ni­festa a von­tade de mu­dança de im­por­tantes sec­tores da so­ci­e­dade norte-ame­ri­cana que se mo­bi­li­zaram e or­ga­ni­zaram para as­se­gurar a eleição de Joe Biden como Pre­si­dente. No en­tanto, estão por con­firmar as ex­pec­ta­tivas cri­adas quanto a im­por­tantes me­didas a serem to­madas no plano in­terno. Para já, a eleição de Biden cor­res­pon­derá à re­a­fir­mação no plano mun­dial do do­mínio he­ge­mó­nico dos EUA, com o que im­plica de con­fron­tação e ameaça à paz.




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