Teias

Anabela Fino

Como se não bastasse quatro anos de mandato pautados por revoltas populares sem precedentes e o trágico recorde de quase 380 000 mortes por COVID-19 desde o início da pandemia, só para citar dois aspectos paradigmáticos, a administração Trump brindou os EUA e o mundo com uma nunca vista invasão do Capitólio, que se saldou por pelo menos cinco mortos e dezenas de feridos, alguns em estado grave. Este quase ending com que alegadamente os apoiantes de Trump pretendiam garantir um segundo mandato ao inquilino da Casa Branca parece ter causado tanta surpresa quanta indignação, a pontos de (finalmente) se fazerem ouvir as vozes rendidas à evidência: enough is enough, que é como quem diz já basta!

O espanto não pode deixar de espantar, já que não podem ter passado despercebidos os instantes apelos do presidente norte-americano à rejeição dos resultados eleitorais e o incitamento à insurreição expressamente dirigido contra o Capitólio. Não se percebe por isso como foi possível a invasão e por que demorou tanto tempo a ser reposta a normalidade.

Mais do que o processo de ‘impeachment’ entretanto desencadeado pela Câmara dos Representantes do Congresso, que tem como objectivo impedir uma eventual recandidatura de Trump, ou a identificação dos invasores que está a ser feita pelo FBI com recurso à Clearview AI (reconhecimento facial através de uma base de dados com mais de três mil milhões de fotos recolhidas em redes sociais e noutros sites de partilha pública!), mais do que isso, dizia-se, importa saber por que motivo a invasão do Capitólio não impressionou a bolsa de Nova Iorque, que negociou em alta, mas o encerramento da conta de Trump no Twitter provocou um trambolhão no valor das acções da empresa.

A fita do tempo dos insólitos acontecimentos tem mais buracos do que um queijo suíço e presta-se às mais diversas análises. Jair Bolsonaro, o presidente «irmão» de Marcelo, aproveitou a oportunidade para avisar, com um ano de antecedência, que em 2022 o país pode viver uma situação pior do que a dos EUA, acolhendo a tese de fraude nas eleições norte-americanas e deixando implícito que o mesmo vai acontecer no Brasil. Na Califórnia, o ex-governador republicano Arnold Schwarzenegger comparou a violência no Capitólio aos crimes cometidos pelos nazis contra os judeus! Por cá, Nuno Rogeiro, sem um pingo de vergonha, classificou a quarta-feira negra de Washington como o «PREC dos EUA», como se fosse possível comparar a violência e o vandalismo ocorridos na sede do Congresso norte-americano com a Revolução portuguesa.

Nas teias que o imperialismo tece é bom ter presente o que se entende por democracia. Basta lembrar que a cúpula do Capitólio é encimada pela Estátua da Liberdade, que lá foi colocada por... escravos afro-americanos.



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