Esta UE não é reformável
Em 2003, quando se debatia o projecto de «constituição europeia», Daniel Cohn-Bendit defendeu que países que votassem Não deveriam ser obrigados a segundo referendo, e se o segundo referendo fosse igualmente negativo deveriam ser expulsos da UE.
Em 2017, o filósofo Slavoj Zizek, pronunciando-se acerca da alternativa presidencial em França entre LePen e Macron, opinou que o neoliberalismo deste abriria igualmente caminho ao fascismo.
Graças ao Público (4.01.2021) vemos que ambos subscrevem uma carta aberta de «Convite aos cidadãos e líderes para um novo poder democrático europeu», que promove uma Conferência sobre o futuro da Europa cuja ideia, ao que parece, é de Macron.
A «carta» está embrulhada em palavras sobre «desigualdades e desemprego», «preservação do planeta», «bem-estar, vida conjunta e paz», sobre dar «oportunidades a todos» com a «nossa diversidade e os contributos culturais, económicos, sociais e históricos de cada um», que ajudarão a obter o apoio dos mais bem-intencionados zizeks. Mas explica igualmente o apoio de todos os cohn-bendit que a subscrevam. Operando sobre a fraudulenta ficção de uma «cidadania europeia», tudo o que aponta é no sentido de ainda maior aceleração do federalismo, desde a imposição da regra da maioria na tomada de decisão até aos requentados (mas com novas designações) Novo Pacto Europeu ou Green New Deal. Quem manda (o eixo Paris-Bona) já publicou uma resolução sobre o que quer da iniciativa.
A questão é clara: a UE que existe conhece a profundidade da sua crise, mas quer aproveitá-la a seu favor. E sendo conhecida a absoluta ausência de democraticidade no seu funcionamento, remete para uma entidade aparentemente exterior o debate da sua «refundação».
Esta UE não é reformável. Julgar «refundá-la» com o ámen do grande capital é perder precioso tempo.