Doce amargo

Anabela Fino

Está todo o ano ao alcance da mão, enche prateleiras em todos os supermercados, tem lojas dedicadas e marcas exclusivas, sofisticadas umas, outras nem tanto, varia de tamanho, qualidade, preço, mas é no período das festas que atinge todo o seu esplendor.

Mete-se pelos olhos dentro onde quer que se vá, é quase impossível fugir ao apelo do requinte das embalagens, da promessa de prazer, da garantia de satisfação.

E ainda por cima, dizem-nos, faz bem à saúde graças aos seus muitos e importantes nutrientes, como os flavonóides (os tão badalados anti-oxidantes) e o triptofano (o aminoácido necessário para o metabolismo da serotonina, a famosa «molécula da felicidade» que ajuda também a combater e prevenir estados de ansiedade, depressão, stresse, insónia).

Há pois que consumir para ser feliz. Falamos de chocolate, naturalmente.

O que ninguém nos diz é que saboreamos o que do amargo se fez doce à custa do suor e sangue do milhão e meio de crianças que perdem a infância na produção de cacau em todo o mundo.

O que não vem na embalagem é que 20 anos passados sobre as promessas de gigantes da indústria como a Nestlé, Mars, Hershey, de pôr fim ao trabalho infantil nas plantações de cacau, 43% das crianças no Gana e na Costa do Marfim, os maiores produtores de cacau do mundo, trabalham na produção de chocolate, como revela uma investigação levada a cabo pela Universidade de Chicago e agora divulgada pelo jornal britânico The Guardian. Essas crianças representam metade dos que em todo o mundo fazem esse trabalho, violento e perigoso, que implica trabalho nocturno e o uso de ferramentas cortantes e de produtos químicos.

Parafraseando Joaquim Namorado, haverá quem encontre no chocolate um sabor divino, mas a nós só nos sabe, só nos sabe à tristeza infinita de um destino.




Mais artigos de: Opinião

Abjecções e pulsões de direita

O cronista das causas e políticas de direita no Público, J. M. Tavares, escreveu, a propósito dos acordos para o governo regional nos Açores, que as «abjecções» do «Chega», não são mais graves do que as que atribui ao PCP (velhas calúnias do fascismo), assim promove os acordos PSD/CDS e sucedâneos, que sempre defendeu....

(Absurdo) Ou talvez não

O agravamento da epidemia, com o crescimento significativo, embora previsível, do número de pessoas infetadas (e internadas) com a doença da COVID-19 não pode deixar de constituir motivo de preocupação. O povo português foi e é o primeiro a reconhecê-lo como se verificou ao longo dos últimos 8 meses em que se aprendeu a...

Os sucedâneos

Chegaram há cerca de um ano à Assembleia da República com os discursos (e os jeitos) bem ensaiados: há que mudar o sistema, refundar o regime, combater a corrupção, libertar a Constituição da sua carga ideológica. Aproveitando-se de ventos mediáticos favoráveis, Chega e Iniciativa Liberal apresentaram-se como produtos...

Casa-trabalho-casa

A partir do início de Março e durante o confinamento dos primeiros meses do ano, o discurso de protecção do vírus centrou-se sobretudo no «fique em casa». Agora o discurso é diferente: «isolamento social», não arrisque, reduza os contactos ao mínimo.

EUA, só um passo atrás do precipício

Num tempo invulgar e altamente turbulento não faltam temas salientes na actualidade internacional. As grandes linhas do 14.º plano quinquenal e do plano a longo prazo até 2035, aprovadas no recente plenário do CC do PC da China, e a entrada na nova etapa de «modernização socialista» do país que está no centro do processo...