EUA, só um passo atrás do precipício

Luís Carapinha

O «sonho americano» tornou-se um pesadelo

Num tempo invulgar e altamente turbulento não faltam temas salientes na actualidade internacional. As grandes linhas do 14.º plano quinquenal e do plano a longo prazo até 2035, aprovadas no recente plenário do CC do PC da China, e a entrada na nova etapa de «modernização socialista» do país que está no centro do processo de rearrumação de forças global; o regresso heróico do MAS ao poder na Bolívia com a posse de Luis Arce na presidência e o retorno de Evo Morales; os desenvolvimentos do conflito no Nagorno-Karabakh, com alterações de monta no terreno e o anúncio do 4.º cessar-fogo, coincidente com o envio para o enclave de uma força de paz da Rússia, são apenas três exemplos destacados, entre muitos outros, a reclamar acompanhamento.

Contudo, as atenções permanecem concentradas no cada vez mais caótico e degradante processo político e eleitoral dos EUA, que há meses satura a agenda mediática. Uma semana após as eleições, não há resultados finais oficiais, embora a vitória de Biden se apresente como um dado irreversível nos resultados apurados. Esta não foi uma eleição normal no sistema prevalecente de regime único bipartidário, desenhado para perpetuar o poder das classes dominantes. O nível de afluência, o mais alto em mais de 100 anos, e o número recorde de votos do candidato vencedor, mais de 76 milhões, reflectem o estado de profunda crise económica e social que a pandemia veio criticamente exacerbar. Mas expressam, sobretudo, a rejeição da política concentradamente reaccionária da administração Trump.

Para o PC dos EUA, a saída de Trump significará um golpe duro para a extrema-direita. Nas palavras de Evo Morales, condensando o sentimento dominante dos povos latino-americanos, «a derrota eleitoral de Trump é a derrota das políticas racistas e fascistas (…) e [das] suas práticas intervencionistas». Tal só foi possível com o concurso decisivo de uma ampla corrente de mobilização e protesto social abarcando diferentes sectores, incluindo as forças progressistas mais avançadas, e este é um dado a reter para a luta e árduo caminho que os trabalhadores e as forças populares dos EUA têm pela frente.

Ao mesmo tempo, embora voltando a perder nas urnas, Trump aumentou a sua votação em relação a 2016. Em termos absolutos, obtém o 2.º maior resultado da história das presidenciais dos EUA. Os republicanos encurtaram a desvantagem para os democratas na Câmara dos Representantes e poderão manter uma maioria reduzida no Senado. A cavada fractura política, inseparável da crise e dinâmica de decadência na principal potência imperialista, não se circunscreve à classe dirigente, perpassa todo o tecido social do país.

É alarmante que a demagogia do discurso racista e fascizante continue a canalizar o descontentamento de importantes sectores populares, nomeadamente, mas não em exclusivo, de segmentos da «classe operária branca». E se Trump não concede a derrota que tenta reverter nos corredores da justiça, Biden dá sinais de querer reconstruir o «centrão» e sarar as feridas com os aliados da Nato. A incapacidade sistémica em dar resposta às gritantes injustiças e desigualdades apenas contribuirá para potenciar a ameaça fascista que não desapareceu.

Nem os apologetas do sistema o podem negar: o «sonho americano» tornou-se um pesadelo real. Não há maior ameaça – para o mundo e o povo dos EUA.




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