É fazer as contas…

João Frazão

Os CTT, que precisam de mostrar serviço, a poucos meses do Governo decidir sobre a concessão do serviço público de correiros, anunciaram a intenção de contratar 800 trabalhadores para, segundo os pasquins do costume, sempre certinhos na valorização da narrativa do grande capital, «reforçar a equipa».

Diz a empresa, e o séquito de jornaleiros reproduziu, acriticamente e em coro, que os CTT, «durante toda a pandemia, manteve-se próximo das populações» garantindo «um elevado ritmo de contratações», no meio de um indescritível arrazoado sobre «serviço público de qualidade» e intenções de «investimento».

Perante uma tal conversa só se pode dizer que é preciso os CTT não terem vergonha e os escribas que isto reproduzem não terem brio profissional.

A comunicação social não se deu ao trabalho de lembrar as dezenas de estações de correios encerradas desde a privatização, que desmentem essa proximidade, antes criam dificuldades imensas às populações, ou de questionar sobre a periodicidade com que o correio é distribuído na generalidade do País, atingindo por vezes mais de uma semana, mesmo com brutais cargas de trabalho para os carteiros.

E sempre se poderiam ter questionado sobre a evolução do número de trabalhadores naquela empresa.

Bastaria ler o Relatório de Contas do primeiro semestre para ver que comparando com 30 de Junho de 2019, a empresa reduziu em mais de 500 o número de trabalhadores.

Ou seja, se se confirmarem essas 800 contratações, e se o ritmo de saídas se mantiver, o saldo, no fim do ano, será apenas de 50 trabalhadores. Ora como uma parte das contratações é apenas para substituir trabalhadores em férias, o que os CTT assumiram foi uma nova redução no número de trabalhadores, apesar de a vender, e dos arautos dos interesses económicos e financeiros comprarem, como uma boa notícia.

Os trabalhadores dos CTT podem contar com mais trabalho e exploração. É como dizia o outro… Bastava fazer as contas.




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