Avisos

Gustavo Carneiro

Por mais que o imperialismo procure fazer esquecer os bombardeamentos nucleares de Agosto de 1945 sobre as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasáqui, ou tente de algum modo justificá-los, a verdade é que eles constituíram um massacre imenso, frio e premeditado de populações civis.

Nos segundos que se seguiram aos impactos (dia 6 em Hiroxima e 9 em Nagasáqui), dezenas de milhares de pessoas foram de imediato incineradas. Outras tantas não resistiram aos ferimentos mais do que umas semanas ou meses e são incontáveis as que, ao longo das décadas, sucumbiram a doenças provocadas pela exposição a tão elevados níveis de radiação. Quanto às cidades, ficaram reduzidas a imensas crateras repletas de cinzas e ferro retorcido. Em Hiroxima, apenas um edifício se manteve de pé. É hoje o Memorial da Paz.

Wilfred Burchett, o primeiro jornalista ocidental a entrar na cidade – ou, como o próprio disse, no local onde ela costumava estar –, só encontrou devastação, desolação e nada mais. Um mês passado sobre o bombardeamento, escreveu, “as pessoas continuavam a morrer, misteriosa e horrivelmente – pessoas que passaram incólumes pelo cataclismo – por algo desconhecido que apenas posso descrever como praga atómica.”

Na verdade, passados 75 anos há ainda quem mantenha, no corpo e na memória, marcas profundas do hediondo crime. São os hibakushas, os sobreviventes. Tal como o célebre artigo de Burchett, também os seus relatos constituem um aviso para o mundo.

Sakue Shimohira, Yasumi Yoshitomi e Ayako Akumura são três destes sobreviventes. Nos testemunhos que deixaram registados, recordam enormes explosões de luz, tufões irreprimíveis, pessoas lançadas violentamente pelo ar, corpos carbonizados, doenças terríveis e prolongadas. Todos perderam pais, mães, irmãos, amigos, vizinhos – que choraram pelos anos fora. Uma explosão nuclear, disse um deles, cria um verdadeiro inferno na terra. Com os actuais arsenais, seria a própria vida na Terra a estar em risco.

Fosse apenas por uma questão de memória e estas dolorosas recordações não seriam invocadas. Acontece que o imperialismo não é apenas responsável pelos primeiros – e únicos, até ao momento – ataques nucleares sobre populações civis. A ele se deve também a utilização da ameaça atómica contra países e povos, a proliferação deste tipo de armamento, a sua instalação nos quatro cantos do mundo e a sua constante modernização.

Se a História já mostrou até onde o imperialismo está disposto a ir para manter o seu predomínio mundial (ou não tivessem os massacres de Hiroshima e Nagasáqui sido dirigidos fundamentalmente contra a União Soviética), ela provou também que é possível travar-lhe o passo. Este é um combate decisivo do nosso tempo!




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