Quando uma proposta dói
A teia de relações, dependências e compromissos estabelecidos entre o poder económico e o poder político em Portugal, raramente permite que se assumam orientações, e mesmo medidas, que afrontem directamente os interesses do capital. Assim tem sido nas mais de quatro décadas que já levamos de política de direita, mesmo se em determinadas circunstâncias se tenham verificado esbatimentos destas tendências e até medidas de sentido positivo – agravamento da derrama sobre as grandes empresas, redução do período de reporte de prejuízos fiscais, adicional ao IMI, etc - como se verificou durante a nova fase da vida política nacional (2015/2019).
Uma coisa é certa: sempre que, pelas próprias contradições inerentes aos partidos da política de direita, exista a possibilidade de se concretizarem medidas que afrontem de facto os interesses do capital, são mobilizados poderosíssimos meios para a combater. É isso que se está a verificar perante a proposta do PCP que visa a possibilidade dos pequenos logistas dos centros comerciais, poderem ver reduzida a componente fixa da renda leonina que em geral pagam, tendo em conta os meses em que os «shopings» estiveram fechados e as brutais quebras de receitas verificadas. É ver a imprensa e desde os «25 mil postos de trabalho em risco» noticiados pela revista Sábado até ao «PCP beneficia bancos com suspensão de rendas» do Jornal de Negócios, tudo tem valido para deturpar os objectivos e impedir a aprovação da proposta.
Recorde-se que esta é uma medida que atinge sobretudo os fundos de investimento imobiliário, detidos no essencial por capital estrangeiro, que são proprietários da maioria dos centros comerciais. Sem a aprovação da proposta do PCP, as pequenas lojas – que não têm os privilégios das grandes marcas consideradas lojas âncora – estariam obrigadas a pagar milhares de euros em rendas quando tiveram a actividade parada durante meses. Ou dito de outra forma, sem a aprovação da proposta do PCP, os fundos de investimento imobiliário manteriam, apesar dos impactos da epidemia e da ruína dos logistas, os seus lucros e privilégios. Veremos...