Anti-quê?

Gustavo Carneiro

Donald Trump aprovou há dias uma ordem executiva com o propósito anunciado de combater o anti-semitismo nas universidades norte-americanas. De imediato, a organização Voz Judaica pela Paz veio a público garantir que a medida não visa fazer face ao «terrível incremento do anti-semitismo» nas universidades, que é real, antes constitui uma «perigosa tentativa autoritária de silenciar o activismo estudantil de apoio aos direitos dos palestinianos».

Deste lado do Atlântico, o reeleito primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, assumiu como uma das prioridades do seu novo governo impedir (e reverter) qualquer boicote ou sanção a Israel por parte das autoridades municipais do país. Durante a campanha eleitoral, o trabalhista Jeremy Corbyn defendeu o reconhecimento do Estado da Palestina e o fim da venda de armas a Israel e foi, por isso, acusado de anti-semitismo.

Já no início de Dezembro o Parlamento francês considerara de forma taxativa que o anti-sionismo é, em si mesmo, uma forma de anti-semitismo, o que mereceu acesas críticas de vários sectores, inclusivamente de académicos judeus e israelitas. Esta mesma comparação foi estabelecida há cerca de um ano em documentos oficiais da União Europeia.

Há poucas semanas, o ainda primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu esteve em Portugal a acertar com o Secretário de Estado norte-americano Mike Pompeo a ocupação do Vale do Jordão, território palestiniano – como o são também Jerusalém Oriental e Cisjordânia, onde já hoje vivem centenas de milhares de colonos israelitas. Nestas duas últimas zonas, aliás, só em 2018 cerca de 460 casas e outros edifícios foram ocupados ou destruídos por Israel e os seus habitantes desalojados.

Entretanto, nos últimos dois anos mais de 300 palestinianos foram assassinados pelas forças de ocupação e para cima de 5000 continuam encarcerados nas prisões de Israel. Entre os mortos, feridos e detidos estão centenas de menores. Pela brutalidade e impunidade da ocupação, que se intensifica, são cada vez mais os que a repudiam em todo o mundo e, em número crescente, também em Israel.

Trump, Johnson e Macron tudo fazem para sustentar aquele que é o seu principal instrumento de dominação no Médio Oriente (o que fica evidente desde logo no papel assumido por Israel na agressão à Síria e na chantagem sobre o Irão) e há que lhes dar combate em todas as frentes: alargando a denúncia da ocupação e a solidariedade ao povo palestiniano e desmontando armadilhas semânticas, como as que confundem ocupação com conflito e anti-sionismo com anti-semitismo.

A discriminação e violência contra judeus, como contra qualquer outro grupo étnico, nacional ou religioso, é crime. A expansão pela força das fronteiras nacionais, o massacre e expulsão de populações também. E é isto o sionismo!

 



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