Seis barragens e nove meses

Ângelo Alves

A anunciada intenção da EDP de vender, por 2,2 mil milhões de euros, seis barragens da bacia hidrográfica do Douro a um consórcio francês é mais uma dura machadada no sector e na soberania energética nacional, suscitando três reflexões.

A primeira é que, como o PCP sempre afirmou, a privatização de sectores estratégicos redunda invariavelmente não só em maiores custos para os consumidores e diminuição da qualidade do serviço público, mas também na alienação de importantes infra-estruturas produtivas (neste caso de energia) e na entrega ao estrangeiro de sectores fulcrais para o funcionamento e a economia do País. A intenção de entregar a um consórcio francês seis barragens numa das mais importantes bacias hidrográficas do País é mais um exemplo, e um atentado ao interesse nacional.

A segunda é que esta intenção é tão mais grave quanto a crescente importância das energias renováveis irá atribuir ainda maior valor e importância a estas infra-estruturas e ao valor da energia ali produzida, ou seja, a propriedade de barragens e da energia que produzem é cada vez mais importante quer do ponto de vista económico, quer estratégico, e a União Europeia está de olho nisso. É por isso que o que deveria estar na ordem do dia não era a venda de barragens, mas sim a questão do controlo público da EDP.

A terceira é que esta venda torna muito mais claro o roubo organizado em que consistiu o processo de privatização da EDP, especialmente a última fase imposta pela troika e decidida pelo Governo PSD/CDS. O Estado abdicou, em troca de 2,7 mil milhões de Euros, do controlo, lucros e património da empresa. Ou seja, contabilizando o valor da venda destas seis barragens, somando-lhe os lucros da EDP nos primeiros nove meses de 2019 (460 milhões de euros) conclui-se que o Estado abdicou do controlo de uma empresa estratégica e de receitas anuais consideráveis a troco de seis barragens e nove meses de lucros!



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