Combater a demagogia
O que têm em comum uma situação de desacatos num quartel de bombeiros, a agressão a uma professora grávida, a dificuldade no socorro pelo INEM, o julgamento de um processo de corrupção, o aumento do número de mortes de mulheres na gravidez ou o acolhimento de imigrantes entrados em Portugal de forma ilegal?
É na luta pelas soluções concretas para os problemas que está a arma capaz de derrotar a demagogia
Aparentemente nada, mas só aparentemente. Na verdade, todas elas têm por detrás problemas sérios que devem ser encarados como tal, mas todas suscitam igualmente diferentes tipos de preocupações ou sentimentos que facilmente ficam à mercê do aproveitamento demagógico.
Todas estas situações foram objecto de debate na Assembleia da República e serviram de pretexto ao discurso demagógico. Quem as levou a debate quis fazê-lo sem apresentar uma única proposta concreta para os resolver, para que não houvesse sequer hipótese de serem seriamente encarados quanto à sua origem ou solução. Limitou-se a aproveitar cada uma daquelas situações para promover sentimentos de ódio, de medo, de insegurança, de desconfiança generalizada, de abandono dos cidadãos à sua própria sorte e à mercê de males impossíveis de contrariar.
A táctica começa a ser óbvia: aproveitar todos os casos, por muito isolados e pouco representativos da realidade que possam ser, e projectá-los como se fossem realidade generalizada de forma a conseguir impor aqueles sentimentos como maioritários.
Um povo que vive com medo, com sentimentos de insegurança e de impotência face aos problemas que enfrenta é um povo que se resigna, que não se insurge e não luta pelos seus direitos e pela construção do seu futuro. Um povo que se sente abandonado à sua própria sorte, entregue a um sentimento de desconfiança em relação a tudo o que o rodeia, é um povo que exclui em vez de incluir, que se isola em vez de se unir, que se rege pela lei da selva em vez de ser solidário.
Os objectivos a que serve essa táctica de manipulação são claramente anti-democráticos, que procuram impor retrocessos políticos e sociais e impedir ou travar a luta por mais democracia, mais igualdade e justiça social. A grande dificuldade é tornar clara essa manipulação feita com a teia da demagogia para que não caiam nela todos quantos se indignam com o que vai mal no País e precisa de ser transformado.
Arma política antidemocrática
Numa sociedade que vive na vertigem da comunicação imediata e atomizada, em que cada situação é tratada de forma isolada e desligada da realidade em que se insere, o combate à demagogia e aos objectivos que serve é um combate difícil de travar mas decisivo na luta ideológica.
A demagogia é uma arma política antidemocrática e torna-se particularmente perigosa quando é usada por quem procura aproveitar-se dos problemas do povo para consolidar o quadro em que esses problemas se enraízam. A demagogia não é arma que possa ser usada por quem luta pela democracia. É preferível deixar o demagogo a falar sozinho do que cair na ilusão de achar que se pode derrotar o demagogo com a sua arma da demagogia.
Mesmo quando alguém usa a arma do demagogo e o deixa sem resposta, é o demagogo quem vence porque os critérios do debate político passaram a ser os seus.
É na luta pelas soluções concretas para os problemas económicos e sociais que atingem os trabalhadores e o povo, é na afirmação dos objectivos justos que estão por detrás de cada uma dessas soluções que está a única arma capaz de derrotar a demagogia.