Transformar ataques do capital num estímulo à acção quotidiana

Gonçalo Oliveira (Membro da Comissão Política)

A nova fase da vida política nacional coincide com a intensificação da ofensiva política e ideológica do capital contra o PCP.

«A ofensiva ideológica do capital é, simultaneamente, um reflexo e um instrumento da luta de classes»

Trata-se de uma óbvia retaliação pelo papel decisivo que o PCP desempenhou na derrota da coligação PSD/CDS, mas também de uma resposta ao receio que a recuperação e conquista de direitos e rendimentos, possibilitada por este, se traduza num reforço da sua influência política e eleitoral.

Mais uma vez se comprovou que a ofensiva ideológica do capital é, simultaneamente, um reflexo e um instrumento da luta de classes.

Foi a partir desse facto que o XX Congresso do Partido deliberou que a iniciativa e a resposta do Partido na luta ideológica tem de continuar a desenvolver-se na “acção quotidiana, traçando objectivos, promovendo debates e outras iniciativas e utilizando de forma integrada todos os meios disponíveis”.

Neste momento está em distribuição nas organizações do Partido a brochura «A Campanha Persecutória contra o PCP - Alguns elementos de informação e esclarecimento sobre a operação da TVI», onde de forma documentada se desmontam os elementos centrais da mesma.

No entanto, apesar daquela estação televisiva ter sido o instrumento preferencial do ataque ao PCP, ela não é, de maneira alguma, o único instrumento ao dispor dos centros do capital monopolista e dos sectores mais reaccionários da sociedade.

Ao nosso redor, nas notícias e “redes sociais”, somos crescentemente bombardeados com cinismo e dúvida, numa incessante síntese noticiosa que destaca as falhas da humanidade e que visa minar a confiança: em nós próprios e nos outros.

Forçados a conviver com uma narrativa em que aquilo que é bom e real é apenas matéria de opinião, em que não existe tal coisa como progresso ou verdade, o sentido da tarefa histórica de eliminar discriminações, desigualdades, injustiças e flagelos sociais, acaba sendo submerso pela descrença, desdém e ira. Impulsos e emoções cultivadas pelo capitalismo enquanto mecanismos para controlar as massas e promover a chamada “economia da atenção”.

A resposta do Partido na luta ideológica não é pois, meramente defensiva, a nossa acção quotidiana ultrapassa esse cinismo crescente lembrando os ideais, conquistas e realizações históricas da Revolução de Abril; celebrando o esforço heróico dos trabalhadores ao longo de gerações para conhecer o mundo tal como ele é, e não como uma classe dominante pretende que ele seja; lutando para aplicar esse conhecimento, ganho a muito custo, ao projecto de construção de uma sociedade mais justa.

Chegar a este momento, em que ganham expressão concreta medidas de sentido positivo resultantes da acção decisiva do PCP e da luta dos trabalhadores, requereu uma incrível quantidade de esforço e coragem. O Partido tem estado na vanguarda desta luta e a sua intervenção tem sido nada menos que notável.

Não basta inocular-nos contra a crescente difusão de ideias e concepções reacionárias e retrógradas, que visam a descredibilização do Partido, da democracia e da política em geral e atacar os valores de Abril.

É em momentos como este que o colectivo partidário deve reforçar a sua unidade e mobilização para ir ao contacto com os trabalhadores e o povo, transformando cada ataque do capital num estímulo à sua intervenção.

A luta pela ruptura com a política de direita e a concretização de uma política patriótica e de esquerda, e de um governo que a realize, exigirá uma intervenção cada vez mais vigorosa de todo o colectivo partidário e dos apoiantes da CDU.




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