Vassalagem

Luís Carapinha

Nos EUA, Bol­so­naro vexou a dig­ni­dade na­ci­onal do Brasil

A re­cente vi­sita do pre­si­dente bra­si­leiro aos EUA fi­cará cer­ta­mente para os anais como uma das pá­ginas mais ne­gras da di­plo­macia do Brasil. Por tudo quanto en­cerra de ve­xa­tório e de­gra­dante para a dig­ni­dade e so­be­rania na­ci­o­nais, re­flec­tindo-se em toda a Amé­rica La­tina, e no mundo.

No beija-mão a Trump e na aqui­es­cência aos su­premos in­te­resses do im­pe­ri­a­lismo, Bol­so­naro quis apa­recer como a alma gémea do in­qui­lino da Casa Branca, não olhando a es­forços, e ao des­pau­tério, no en­ga­ja­mento com os EUA na vi­ru­lenta cru­zada re­ac­ci­o­nária que tem como ar­ga­massa o an­ti­co­mu­nismo mais ca­ver­ní­cola. A emer­gência e afi­ni­dades de uma ex­trema-di­reita ne­o­fas­cista, im­pul­si­o­nada pela as­censão de Trump, con­fi­guram um pro­cesso não des­de­nhável, a reter na sua real di­mensão. Mas a re­a­li­dade mais pro­saica que per­passa da pos­tura po­lí­tica de Bol­so­naro é a da ba­ju­lação da besta pe­rante o cri­ador. A eleição do ex-ca­pitão em 2018 cons­ti­tuiu o co­roar do golpe ju­rí­dico-ins­ti­tu­ci­onal que afastou Dilma e levou à prisão Lula, blo­que­ando a sua par­ti­ci­pação no pleito pre­si­den­cial em que era apon­tado fa­vo­rito. Toda uma trama, em que o braço longo do im­pe­ri­a­lismo dos EUA não de­sem­pe­nhou, de todo, um papel menor.

Du­rante a vi­sita, Bol­so­naro jantou com Bannon, fi­gura pivot da alta-re­acção dos EUA. O pre­si­dente e co­mi­tiva, in­cluindo o agora mi­nistro Moro, vi­si­taram nada menos que a sede da CIA. Foi anun­ciada a mu­dança de em­bai­xador em Washington – por certo para um perfil mais fun­ci­onal ao afã de sub­ser­vi­ência que o Pla­nalto de­seja im­primir. Com Trump, em tom tu-lá-tu-cá, Bol­so­naro ad­mitiu trocar o re­gime pre­fe­ren­cial do Brasil na OMC por uma adesão à OCDE. Sobre o ca­dáver da Unasul, cedeu aos EUA a uti­li­zação da base mi­litar de Al­cân­tara, na re­gião ama­zó­nica, na es­teira do pro­cesso de ali­e­nação da Em­braer à Bo­eing. No pro­me­tido re­ga­bofe pri­va­ti­zador mais es­tará para vir, in­clu­sive o pe­tróleo do pré-sal. O Brasil dispôs-se a baixar ta­rifas e ru­bricou mais com­pras de trigo. Trump fez questão de vincar a re­ci­pro­ci­dade do Ame­rica first com uma mão cheia de nada em termos de com­pras reais. Mais: ine­briado pelo es­pí­rito de co­mu­nhão, pro­meteu con­ceder ao Brasil o es­ta­tuto de aliado-maior não membro da NATO e, quiçá, até a in­te­gração (à se­me­lhança da in­clusão na Nato em 2018 da Colômbia como ‘par­ceiro glo­bal’). A fór­mula da NATO e a OCDE po­derão ser uma forma de anular a per­ma­nência do Brasil no BRICS, mas para já tudo in­dica que o país aco­lherá a ci­meira de 2019 da or­ga­ni­zação. E não é em­presa sim­ples sa­tis­fazer as sa­li­entes pre­ten­sões anti-China, quando Pe­quim é o maior par­ceiro co­mer­cial e prin­cipal des­tino ex­por­tador do Brasil.

Claro, o prato forte do en­contro com Trump foi a Ve­ne­zuela. Bol­so­naro não foi claro na re­jeição da par­ti­ci­pação numa in­ter­venção mi­litar, de­pois de os EUA eco­arem pela ené­sima vez a ameaça de que «todas as op­ções estão em cima da mesa».

Con­tudo, a su­bor­di­nação de Bol­so­naro terá ido longe de mais. Como con­fi­den­ciou uma fonte da co­mi­tiva bra­si­leira «eles pedem tudo, mas não estão dis­postos a ceder em nada». No re­gresso, a de­le­gação pre­si­den­cial de­parou-se com novas ex­pres­sões da re­sis­tência po­pular contra a gra­vís­sima re­forma da Pre­vi­dência e a po­lí­tica de clau­di­cação na­ci­onal.




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