(Des)Humanos

Anabela Fino

Numa sociedade em que os «mercados» reagem com euforia aos despedimentos em massa ou às agressões militares capitaneadas pelos EUA e afins, e entram em depressão com o mais leve sinal de política de esquerda, os direitos humanos são cotados em alta sempre que em causa estão interesses que rendem chorudos lucros. Quando a ocasião chega, aparecem como cogumelos organizações muito humanitárias que têm como única razão de ser, garantem-nos todos os dias, ajudar a pobre gente que não tem comida, nem medicamentos, nem dinheiro, nem nada.

É o que está a acontecer na Venezuela, tão rica em petróleo, de que não se fala, e tão pobre em direitos humanos, de que se fala até à exaustão. Pobreza imposta e agravada por um «regime» tirano que não abre as fronteiras à ajuda humanitária, como referiu há dias o ministro português dos Negócios Estrangeiros, sublinhando que «há mais de ano» que a UE tinha assinalado as carências de bens básicos.

Esqueceu-se o ministro, imbuído de tanto humanismo, de referir há quanto tempo duram as sanções que têm vindo a estrangular a economia venezuelana; o congelamento de activos da Venezuela nos EUA, na Europa e noutros países; a proibição imposta por Trump a transações com qualquer tipo de moeda digital emitida por, para ou em nome do governo de Caracas.

Esqueceu-se o ministro de referir que o humanista Barack Obama aprovou em 2015 – três anos antes das eleições agora contestadas – o decreto de «emergência nacional», ainda em vigor, que considera a Venezuela uma «ameaça» para a segurança interna norte-americana.

Esqueceu-se ainda o ministro de assinalar que em Novembro último Trump assinou uma ordem contra as exportações de ouro da Venezuela, que tanta carência poderiam minorar.

Invocados para usar quando dá jeito, os direitos humanos e a ajuda humanitária ficam em banho-maria mal os democráticos estados atingem os inconfessados fins do capital, ainda que a Save the Children anuncie, como fez no dia 15, que 100 000 bebés morrem anualmente por causa dos conflitos armados, que o número de vítimas mortais ascende a 870 000 se se considerar todos os menores de cinco anos, e que os dez países mais afectados são o Afeganistão, Iémene, Sudão do Sul, República Centroafricana, República Democrática do Congo, Síria, Iraque, Mali, Nigéria e Somália, todos muito «ajudados» pelas potências ocidentais.

Os direitos humanos e a ajuda humanitária também se ficam a vestir quando o assunto são os migrantes, ainda que o governo ultra-liberal da Austrália tenha acabado de anunciar a reabertura do campo de Christmas, considerado o pior do mundo, em que seres humanos são abandonados à sua sorte nessa ilha perdida no Oceano Índico, a 1500 km das costas australianas.

Tanto humanismo até cansa.




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