No choco

Anabela Fino

Corria o ano de 2014, se a me­mória me não falha, quando Luís Mon­te­negro, pu­ta­tivo fu­turo di­ri­gente do PSD, pro­feriu a frase la­pidar que o há de acom­pa­nhar até à tumba: «A vida das pes­soas não está me­lhor mas a do País está muito me­lhor». À época, Passos Co­elho já tinha ar­vo­rado em po­lí­tica de Es­tado a «ne­ces­si­dade» de os por­tu­gueses em­po­bre­cerem para o País en­ri­quecer, ga­bando-se de ir «além da troika» nas me­didas para o con­se­guir.

A fi­lo­sofia sub­ja­cente a tal po­lí­tica nada tem de ori­ginal e re­sume-se, fa­lando claro, a con­denar a mai­oria da po­pu­lação a tra­ba­lhar mais e em pi­ores con­di­ções por menos re­tri­buição e menos di­reitos para que a eco­nomia pros­pere e uma elite en­gorde.

O re­sul­tado foi o que se viu, com a troika a de­sancar no fa­lhanço das me­didas im­postas e a exigir mais me­didas idên­ticas, como se à força de per­sistir no erro o efeito pu­desse ser di­fe­rente.

Quatro anos pas­sados, cabe ao CDS de Cristas re­tomar o dis­curso, com as de­vidas adap­ta­ções. Pin­tando de negro a «re­a­li­dade» em que vivem os por­tu­gueses, a di­ri­gente cen­trista ad­voga que está tudo pior – fa­mí­lias, em­presas, País – e sem se deter na sua pró­pria con­tra­dição ga­rante que a re­cu­pe­ração da con­fi­ança dos por­tu­gueses, o cres­ci­mento eco­nó­mico, mais em­prego e menos de­si­gual­dade é mé­rito do go­verno... PSD/​CDS, não obs­tante a eco­nomia na­ci­onal ter tido, em 2013, o quarto pior ano desde os anos 60 do sé­culo pas­sado.

Tra­du­zindo, na versão PSD/​CDS, há quatro anos os por­tu­gueses es­tavam pior mas o País es­tava me­lhor. Hoje, os por­tu­gueses sentem-se me­lhor apesar de es­tarem pior e o País está pior apesar de estar me­lhor. Con­fuso? Pa­ci­ência.

Nada con­fuso é o ob­jec­tivo do CDS com este in­trin­cado dis­curso, como mais uma vez ficou claro na con­fe­rência evo­ca­tiva do 25 de No­vembro de 1975 que pro­moveu na Ama­dora este fim-de-se­mana. Sau­dosa do pas­sado e das po­lí­ticas que há quatro dé­cadas des­vir­tuam os va­lores da re­vo­lução de Abril, Cristas de­fendeu uma «al­ter­na­tiva de centro di­reita para Por­tugal», di­zendo que o CDS é «talvez» o único par­tido que a pode im­ple­mentar, já que nada quer ter a ver com o PS.

Para quem passa a vida à bo­leia das justas pre­o­cu­pa­ções dos por­tu­gueses, não para os apoiar na re­so­lução dos pro­blemas mas para se pro­mover po­li­ti­ca­mente, pois como já se viu as suas «so­lu­ções» visam um País dis­so­ciado dos seus ci­da­dãos, Cristas bem pode lançar con­fusão no dis­curso. É que quando se es­gra­vata um bo­ca­dinho na fina capa do verniz po­pu­lista logo se en­contra a opção pura e dura da di­reita: é pre­ciso que a mai­oria se vergue aos in­te­resses do ca­pital.

Com o PSD per­dido no seu la­bi­rinto e com a ex­trema di­reita em as­cenção na Eu­ropa, o CDS vê uma opor­tu­ni­dade para crescer. Os ovos da ser­pente estão no choco.




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