Mais é menos
O estudo «Igualdade de Género ao longo da vida», coordenado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos e divulgado esta segunda-feira pela agência Lusa comprova que as mulheres são discriminadas em toda a Europa e que esta realidade é particularmente acentuada em Portugal.
De acordo com os dados apurados, apesar de as mulheres serem, em média, mais escolarizadas do que os homens, a sua entrada no mercado de trabalho faz-se em desvantagem, traduzida em salários mais baixos e empregos mais precários, a que acresce a acumulação das horas de trabalho doméstico ou de assistência à família.
«As mães portuguesas são as que mais trabalham na Europa», afirmou a coordenadora do estudo, Anália Torres, que em entrevista ao Jornal Económico sublinhou o facto de não obstante Portugal ter uma taxa de mulheres a participar em cursos tradicionalmente masculinos muito mais alta do que em muitos países do Norte da Europa, como é o caso dos cursos de engenharia, e uma percentagem de mulheres em cursos científicos muito maior do que em outros países europeus, a diferença salarial ser «brutal».
As desigualdades entre homens e mulheres em Portugal são uma realidade quer para os salários mais elevados – a diferença nos quadros dirigentes ronda os 600 euros – como para os mais baixos, com os trabalhadores não qualificados a registar uma diferença de 200 euros, com a agravante de que os homens e as mulheres portugueses «são dos mais mal pagos no contexto europeu», sendo as mulheres «especialmente atingidas pelos salários baixos», já que «em todos os países analisados os homens têm um salário médio/hora superior ao das mulheres».
Os resultados deste estudo confirmam não só o que há muito sabem e sentem na pele os trabalhadores, como sobretudo desmascaram a retórica da política da direita, em particular do último governo PSD/CDS, que no tempo da troika e na assumida intenção de «ir além da troika» não pouparam na campanha de intoxicação e manipulação da opinião pública para fazer crer que os portugueses são preguiçosos, têm mordomias a mais, trabalham pouco (lembram-se dos feriados?), auferem salários excessivos, são pouco flexíveis, precisam de sair da sua «área de conforto»....
O estudo confirma ainda que, para além da necessária mudança de mentalidades para que a sociedade assuma que as chamadas tarefas domésticas e o apoio à família não têm género, não será persistindo nas políticas seguidas até aqui, como pretendem o PS e as organizações patronais, obviamente com o suporte de PSD, CDS e UGT, com mais um acordo na concertação social para melhor explorar os trabalhadores que esta realidade se altera.
Com esta política, em que mais significa menos – mais horas de trabalho, mais discriminação, mais exploração, mais desigualdade serão sempre sinónimo de menos justiça social –, as belas palavras que por aí se ouvem em louvor dos trabalhadores não passam de retórica.