Doutrina obscena

Luís Carapinha

Não contam, claro, com a resistência popular e patriótica

O discurso de Rex Tillerson na Universidade do Texas na véspera de embarcar para o primeiro périplo pela América Latina e Caraíbas, há um mês, condensa as linhas fundamentais da doutrina da administração Trump para a região que o imperialismo norte-americano insiste em tratar como pátio das traseiras. Sem surpresas, Venezuela e Cuba figuraram na prédica como alvos prioritários. Washington continua a arrogar-se paladino do combate para «eliminar a tirania» e auspiciar as «liberdades políticas» e «valores democráticos». No mundo e, em particular, nas Américas. É este o conto bafiento com que o poder estadunidense e a sua profusa corte canora e densa teia de dependências de classe tergiversam o real e infame exercício da exploração, ingerência e intervencionismo.

Aproveitando o fôlego, o secretário de Estado advertiu para a presença da China, lembrando pesarosamente que Pequim é o maior parceiro comercial do Brasil, Argentina, Chile e Peru. Inaudito sacrilégio, na região vital para os interesses monopolistas dos EUA – ali a maior economia mundial ainda ostenta um saldo positivo da balança comercial, contrastando com o pesado défice global estadunidense (em especial com a China).

Para o antigo CEO da ExxonMobil, a cooperação da China com a região é perniciosa, o seu «modelo de desenvolvimento comandado pelo Estado é reminiscente do passado» e Pequim seduz com uma «via de desenvolvimento» ilusória, conducente à «dependência de longo-termo». Seria caso para dizer que os EUA, sim, sabem do que fazem. Mas Tillerson foi mais longe. Convidado a antecipar as celebrações dos 200 anos da doutrina Monroe, que em 1823 estabeleceu o hemisfério Ocidental como coutada privada dos EUA, dando início à dominação secular do continente por aquela que se tornaria a potência imperialista dominante no mundo, Tillerson enalteceu o seu papel, considerando a sua aplicação um sucesso. Ainda mais à luz da presente conjuntura. A viragem à direita e a forte arremetida imperialista na América Latina é hoje uma realidade.

Em 2013, discursando na sede da OEA, o secretário de Estado dos EUA, Kerry, declarara o fim solene da doutrina Monroe. Então, a dinâmica da correlação de forças ainda permitia o avanço da cooperação multilateral em organizações como a ALBA, UNASUR e CELAC, enquanto a Casa Branca tratava de engatar a contra-ofensiva imperialista. Agora, sob o ímpeto da campanha subversiva de restauração oligárquica, os EUA cavalgam a cruzada reaccionária, intensificando o domínio e exploração «unilateral» do manancial de recursos naturais, força de trabalho e potencial económico da região.

Com Almagro na OEA, mas sem reunir os votos necessários, tecem através do Grupo de Lima o sufoco económico da Venezuela bolivariana, a ameaça de bloqueio petrolífero e intervenção militar, concertando esforços para descredibilizar as eleições de 22 de Abril. Tentam abrir um novo capítulo na relação militar com o Brasil do golpe em curso, a par da investida privatizadora do grande capital. Abençoam a golpada eleitoral nas Honduras e pressionam a revisão ainda mais desigual da NAFTA com o México. Silenciam a violação da Paz na Colômbia e a continuação das atrocidades. E muito mais... Não contam, claro, com a resistência popular e patriótica que mais cedo do que tarde acabará por enterrar definitivamente a obscena doutrina e o domínio decadente do imperialismo sobre o continente das veias abertas.




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