Nem nem

Henrique Custódio

Basta a análise de Maria Luís Albuquerque ao novo Orçamento do Estado para se ver que o «passismo» não abandonou o PSD. A senhora – que chegou a ser aventada como substituta de Passos Coelho na direcção do partido – exibiu o que lhe ensinou (quando foi professora de Passos) e o que com ele aprendeu (quando foi sua ministra), expondo um decalque do discurso de Passos ao longo dos dois últimos anos, que oscilou entre a vinda do diabo, a acusação de que se estavam a aproveitar «do trabalho feito» e, por fim, a apropriação despudorada dos resultados económicos registados, apagando por completo a política realizada pelo governo PSD/CDS de espoliação social generalizada.

«Mais passista que Passos», como lhe chegaram a chamar, Maria Luís teria feito uma triste figura se a levassem a sério. Passista ou não, o certo é que Maria Luís está tão de passagem como o seu ex-primeiro-ministro, pelo que, em suma, não tem importância o que perorou, porque ninguém ligou ao que disse.

A turbulência do PSD vem de origem, quando ainda se chamava Partido Popular Democrático – PPD e um dos seus fundadores, Sá Carneiro, provocava congressos atrás de congressos para impor a sua liderança. Basta lembrar que de Novembro de 1974 a Junho de 1979 o PPD (e depois PSD, a partir de 1976) realizou sete congressos em cinco anos (o que dá uma média de 1,4 congressos por ano), contando actualmente um total de 36 congressos em 43 anos de democracia, o que tanbém é obra.

Não é segredo para ninguém que o PSD apenas sossega atrás de uma liderança que lhe proporcione o poder no País. Como se viu com Cavaco, Barroso ou Passos, nessas alturas é um sossego, o chefe manda e a malta obedece, por assim dizer – a malta do PSD e correlativos, claro, entretanto ocupadíssima a disputar ou a defender lugares à mesa da satrapia.

Esta visão absolutamente instrumental do poder no PSD foi-se transformando, pela teia paciente dos seus ideólogos de confraria, na famosa «turbulência» do partido, apresentando-o como um organismo «irrequieto» onde cresceram barões e baronatos que foram simulando «lutas ideológicas», enquanto sempre procederam como meteorologistas, a adivinhar donde soprará o vento que os leve de regresso ao aconchego do poder.

O verdadeiro problema do actual PSD é que a liderança de Passos Coelho enfiou o partido numa deriva tão escaroladamente reaccionária, que o partido ficou refém na classificação de direita, coisa de que fugia a sete pés nos agora mitificados tempos de Sá Carneiro.

Rui Rio, o ex-autarca do Porto cujo autoritarismo o incompatibilizou com a generalidade das expressões artísticas da cidade, não parece promissor na redenção do atascanço à direita do PSD. Nem Santana Lopes, o «menino guerreiro» que não envelhece de vez. Veremos.

 



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