De novo
De novo, nada. Nem as mortes, nem a destruição, nem as árvores chamuscadas, nem o negro que cobre serras e vales, nem as estradas cortadas, nem as comunicações interrompidas, nem o calor medonho que nasce de dentro da labareda.
De novo, nada. Nem o desordenamento florestal, nem as faces compungidas, nem as vozes de comando, nem a falta de meios, nem os aviões no ar, nem as visitas oficiais.
De novo, nada. Nem as lágrimas, nem a falta de prevenção, nem o abandono do mundo rural, nem as sirenes e as luzes que rasgam as noites, nem o fumo que faz do dia noite.
De novo, nem a dor. A dor de cada um, que se renova a cada dia que passa. A dor porque se é impotente, porque, por muito que se faça, o fogo toma para si tudo aquilo em que toca. A dor porque se perdeu alguém próximo, porque se perdeu tudo o que se tinha, porque parece que se perdeu a própria vida, na certeza de que, pelo menos, se perdeu uma parte de si.
De novo, só este sobressalto que traz um país alerta para as consequências de dezenas de anos de política de direita na floresta portuguesa.
Que agora não se permita que, quando cair o pano, nem isso fique. Que, depois do folclore, das câmaras e das máquinas fotográficas a captar a desgraça, das reuniões extraordinárias, dos directos em formato novela da vida real, dos populismos que por estas alturas vêm das mais diversas origens, das lágrimas de crocodilo que choram os que acumulam e sacodem como podem responsabilidades pela situação a que se chegou, que depois de isto tudo, não se venha a mudar o que for necessário para que fique tudo na mesma.
De novo, o que é preciso é que se disponibilize os meios, que se apoie as pequenas e médias explorações que constituem a base da propriedade florestal no nosso País, que se valorize o preço da madeira, que se respeite e desenvolva os baldios, se invista nos serviços públicos e nas funções sociais do Estado, se assegure o funcionamento das estruturas do Estado para o sector, se valorize a floresta com espécies autóctones.