Bandalheiras
Com o antecipado pedido de desculpas pelo vernáculo que dá mote ao texto, aqui se esclarece que o seu uso decorre da mera citação de um titulo num jornal diário dedicado a assuntos económicos. «A bandalheira orçamental de 2018» é o edificante título de um aguerrido amanuense ao serviço do capital monopolista. Não é fácil decidir o que sobra de mais deplorável: se o texto de um «jornalista de economia» ou se a decisão de o pespegar numa página do jornal. A questão está longe, contudo, de nos levar a gastar energia. Estas coisas de juntar jornalismo e economia acaba por não deixar perceber se é carne ou peixe, pelo que a mistura tem de redundar na mixórdia que se vê.
O homem está escandalizado com o OE. Não se julgue que a razão tem a ver com o Orçamento ostentar as limitações associadas às opções de um governo que permanece submetido a regras e imposições que tolhem a resposta plena aos problemas do País. Não, o que o horroriza é o aumento de pensões de reforma, a redução de impostos nos salários e reformas de mais baixo rendimento, o pagamento devido pelo trabalho prestado, a contratação de trabalhadores em falta nos serviços públicos. Possuído por tamanhas heresias aí o temos a decretar que «tudo isto se vai pagar com língua de palmo». Chama-se a isto “cantar de galo” dos que, de papo cheio e algibeira recheada, ao verem alguém que tendo 300 euros de pensão de reforma pode vir a ter um aumento extraordinário de 10, exclamam, como a criatura exclama, «é isso que mata Portugal».
Olhando para o que por aí se lê e ouve seria recomendável, mesmo percebendo que têm de fazer por merecer o que recebem, que disfarçassem um pouco essa saudade irreprimível da troika e dos tempos do saque e roubo de direitos e salários.
Escreveu o autor da bandalheira que «é difícil dizer estas coisas quando a festa vai animada e ninguém larga o jarro da sangria.» Aqui fica um conselho que o pode ajudar: passe a escrever sem o jarro à vista. Vai ver que não continua a fazer figura triste.