Todos ao mesmo tempo

Margarida Botelho

Um dos males deste país é os portugueses terem a mania de fazerem tudo ao mesmo tempo. Vão ao médico ao mesmo tempo, ligam a luz ao mesmo tempo, metem-se no carro para os mesmos sítios ao mesmo tempo, vão para a escola ao mesmo tempo, apanham transportes ao mesmo tempo. Uma cambada de invejosos que não podem ver o vizinho a fazer nada que querem logo fazer igual. Se fossem, tranquilamente e por ordem alfabética, à vez, fazer as coisas que têm que fazer, não se notava que havia falta de infra-estruturas, ou de profissionais, ou de serviços.

Volta e meia assistimos a manifestações deste quadro mental e ideológico da política de direita: nas consultas que só podem durar 10 minutos, no aumento das taxas moderadoras, no aumento do número de alunos por turma, nos cortes nos serviços de transporte.

Na semana passada tivemos mais um episódio de antologia. Perante os sucessivos cortes nas carreiras da Transtejo e da Soflusa, que levaram o caos aos cais de embarque, a administradora convocou a comunicação social para transmitir a seguinte pérola: «lamentamos e pedimos a ajuda dos senhores passageiros para evitar que amanhã, quinta e sexta-feira, se verifiquem novos incidentes na estação do Barreiro. Apelamos que tentem organizar as suas deslocações até ao final da semana, ou antecipando a hora de ponta das 8h ou passando para depois das 9h».

A administradora explicou que cada barco leva 600 pessoas e que «basta» falhar um para o caos se instalar. Imagine-se quando falham dois e se acumulam cerca de 1500 pessoas a tentar apanhar o primeiro barco que apareça para não faltarem ao trabalho, à escola ou a alguma consulta médica.

As razões estão absolutamente denunciadas: anos a fio com as manutenções indispensáveis por fazer, falta de profissionais, desinvestimento. Os utentes não precisam de conselhos paternalistas sobre como organizar os seus horários. Precisam é de um serviço de transportes públicos fiável, confortável, a um preço justo.




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