Relatório sobre incêndios reclama debate sério e que o Governo tire consequências

O Grupo Parlamentar do PCP está a analisar o relatório técnico independente sobre os incêndios de Junho, afirmando que estará pronto para um «debate sério e aprofundado» logo que este venha a ser agendado, após o qual o «Governo deve tirar todas as consequências daquilo que falhou e fazer todas as correcções que sejam necessárias».

«É esse o nosso objectivo: melhorar as coisas e não utilizá-las como arma de arremesso político contra ninguém», esclareceu o deputado comunista António Filipe ao intervir sexta-feira passada, 13, no decurso de um debate de actualidade pedido pelo PSD sobre o conteúdo daquele relatório elaborada pela comissão técnica independente e divulgado na véspera.

A circunstância de esta discussão ocorrer poucas horas depois de o relatório vir a público – documento com mais de 400 páginas sobre uma matéria de grande complexidade –, foi mal acolhida por todas as bancadas à esquerda do hemiciclo, que questionaram as motivações do autor da iniciativa.

«Não pode ser um debate sério a discussão de um relatório menos de 24 horas depois dele ser conhecido», salientou também a ministra da Administração Interna, num debate onde o PSD insistiu na tecla de que o «Estado falhou» e que o primeiro-ministro deve «pedir desculpas» aos portugueses, enquanto o CDS-PP pôs o foco no pedido de demissão de Constança Urbano de Sousa.

Não à instrumentalização

Clarificando a posição do PCP, António Filipe recordou que desde a primeira hora é por si considerada a existência de dois pontos fundamentais: o primeiro, o apoio às vítimas, e por isso apresentou iniciativas nesse sentido; o segundo, o cabal esclarecimento sobre o que efectivamente se passou, retirando daí todas as consequências que haja a retirar.

«Foi sempre essa a nossa posição e essa é a posição que mantemos», sublinhou, acrescentando ser por isso que não desvaloriza este relatório, tal como não desvaloriza «tudo aquilo que tem sido produzido ao longo de vários anos pela Assembleia da República».

Relatórios «muito meritórios e profundos», precisou, observando que se os mesmos tivessem sido seguidos, quer pelo actual quer por anteriores governos, «certamente muitas das tragédias de incêndios florestais poderiam não ter tido a gravidade que tiveram e que estão a ter este ano».

«Uma coisa é, porém, não desvalorizar o relatório, outra coisa é instrumentalizá-lo – e é isso que lamentavelmente o PSD está a fazer», acusou António Filipe, criticando que seja este o «primeiro a desvalorizá-lo, na medida em que procura instrumentalizá-lo com objectivos meramente político-partidários».

O deputado comunista trouxe ainda à colação a afirmação do PSD de que não tencionava usar a tragédia do incêndio de Pedrógão Grande como arma de arremesso político, para concluir que, «lamentavelmente, não tem feito outra coisa». «Primeiro, foi uma lista de mortos, como se a tragédia não tivesse já sido enorme, depois foram os suicídios que afinal se verificou nunca terem acontecido, agora é o debate sobre este relatório», enumerou, verberando que o mesmo tenha sido desencadeado prematuramente quando está já agendado na AR um debate sobre o mesmo para 27 de Outubro, quando estava já prevista também a ida anteontem, 17, da ministra à comissão (também a pedido do PSD e do CDS), quando o próprio Governo anunciou um conselho de ministros extraordinário para este sábado.

«Ainda não tinha sido humanamente possível ler o relatório e já o PSD estava a pedir este debate de actualidade», censurou o parlamentar comunista, considerando tal postura «reveladora dos objectivos» daqueles que o promoveram.




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