Os amigos não se esquecem
Javier Solana está de regresso. Fazendo prova de vida. Mais do que isso, fazendo jus ao papel que lhe atribuíram de feitor das ambições e estratégia de dominação imperialista. E sobretudo, revelando que no antro em que se move não há ingratidão. Se alguém julgava que Solana, registada a sua entrega no papel que lhe atribuíram quer como alto-representante da UE para a Política Externa e de Segurança, quer como secretário-geral da Nato, seria deixado à sua sorte, engana-se. O homem é presidente do Centro de Economia Global e Geopolítica da ESADE. Seja isso o que for, não sendo difícil imaginar para o que serve, desamparado Solana não fica. Os amigos são para as ocasiões. Não será em vão que Solana passou da rebeldia juvenil anti-Nato, a ministro do governo do Partido Socialista espanhol, até mandante daquela aliança militar agressiva. Favor com favor se paga. Em artigo publicado há dias, Solana sublinhava o facto de nos dias em que os iranianos foram às urnas «Trump estava a caminho da Arábia Saudita, uma escolha notável para a sua primeira viagem oficial ao exterior». Não fosse a ideia perder nitidez, acrescentou os seus votos para que essa «sua breve visita ao Médio Oriente ajude a criar condições favoráveis para o progresso rumo à paz na região». Um leitor menos atento tomaria a afirmação como um exercício de fina ironia. Conhecido que é o papel da Arábia Saudita enquanto centro de formação e recrutamento do terrorismo (ali se criou e armou a Al-Qaeda), conhecido que ali reside um dos mais obscurantistas e retrógrados estados totalitários do mundo, registe-se quer a escolha do presidente dos EUA, em linha com a política das administrações antecedentes, quer a opinião de Javier Solana. Sendo que neste caso, conhecida que é a sua concepção de «razão humanitária» invocada na sua qualidade de chefe da Nato para desencadear os bombardeamentos contra o Estado jugoslavo, tratou-se apenas de um novo momento para exercitar a noção de diplomacia intrínseca aos centros do imperialismo.