Estados Unidos

Pedro Guerreiro

Intensifica-se até à exaustão a campanha da «ameaça russa»

As divisões, clivagens e choques no seio da classe dominante dos Estados Unidos, que foram crescentemente expostos nas recentes eleições realizadas na actual potência hegemónica do mundo capitalista, não dão sinais de se apaziguarem com a tomada de posse de Donald Trump como presidente dos EUA, bem pelo contrário...

Talvez de forma inédita e traduzindo a dimensão da crise, a profundidade dos problemas e a complexa encruzilhada com que os Estados Unidos se confrontam – e que o seu declínio económico relativo no plano mundial igualmente evidencia –, continua a exibição do estado de degradação do sistema político norte-americano, onde emerge de forma clara a sistemática «fabricação» e utilização da mistificação e da mentira que o caracteriza, suportada na teia e acção de um indeterminável conjunto de agências e serviços de informação, dos grandes meios de comunicação social, de responsáveis políticos e, fundamentalmente, dos grandes (e contraditórios) interesses económicos que estes representam. Face ao «vale tudo», há quem chegue a equiparar as actuais manobras e tramas entre a classe dominante dos Estados Unidos – nomeadamente as que visam descredibilizar, deslegitimar, condicionar a acção e mesmo limitar o mandato do futuro presidente – às acções que estes utilizam nas operações de desestabilização e subversão contra outros estados soberanos.

Saliente-se que, neste quadro, continua a ser desenvolvida toda uma intensa campanha que visa branquear o que representaram os dois mandatos de Obama no prosseguimento da agenda neoliberal e agressiva que procura afirmar e impor o domínio hegemónico dos EUA.

Do mesmo modo, intensifica-se até à exaustão a campanha da «ameaça russa», escondendo cinicamente que, entre outros importantes aspectos, são os Estados Unidos e os seus aliados os responsáveis pela destruição da Líbia; pela agressão à Síria; pela agressão ao Iémen; pela fragmentação do Iraque; pela continuação da guerra do Afeganistão; pelo golpe na Ucrânia; pela promoção e apoio a grupos armados e à sua acção terrorista; pelo reforço da NATO no Leste da Europa, de que é exemplo a recente instalação de significativos meios militares dos EUA na Polónia; pelo desenvolvimento das armas nucleares e a corrida aos armamentos; pela instalação do sistema anti-míssil norte-americano na Europa e a decisão de o instalar na Ásia; ou pela definição da China como o grande adversário estratégico e o reforço da presença militar dos EUA no Pacífico.

Note-se ainda que Trump começa a ser utilizado como pretexto na União Europeia – e face à saída do Reino Unido – para dar ímpeto a novos saltos no processo de integração capitalista europeu, com novos ataques à soberania nacional e o aprofundamento da sua militarização.

Não iludindo diferenças, Donald Trump não representa uma visão distinta quanto a aspectos fundamentais da sociedade norte-americana, quanto à afirmação e imposição do domínio hegemónico dos Estados Unidos. Com a sua tomada de posse irão ficar mais claros os desenvolvimentos na agenda que tem caracterizado as sucessivas administrações norte-americanas, incluindo no quadro da relação de concertação-rivalidades com outras potências imperialistas, assim como com os denominados países «emergentes».

A situação nos Estados Unidos coloca uma vez mais em evidência que está nas mãos dos trabalhadores e do povo norte-americano a construção de uma real alternativa que, rejeitando a falsa e ilusória «opção» que lhe tem vindo a ser imposta, confronte o capital financeiro de «Wall Street» e o complexo militar-industrial que dominam os EUA e ameaçam e agridem o mundo.




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