Festa e protesto no turismo
À entrada para a «cimeira do turismo», representantes dos trabalhadores deste sector fizeram ouvir anteontem a denúncia de que os resultados «cinco estrelas» são obtidos com salários baixos e precariedade muito elevada.
A CGTP-IN exige que quem cria a riqueza seja remunerado com justiça
Para 27 de Setembro, Dia Mundial do Turismo, a confederação patronal convocou a 3.ª «cimeira» do sector, em Lisboa, no Museu do Oriente. Quando a Federação dos Sindicatos da Agricultura, Alimentação, Bebidas, Hotelaria e Turismo marcou uma acção de protesto para o mesmo local, admitiu que a cúpula dos patrões não convocara as organizações sindicais «provavelmente porque não pretende ouvir a voz dos trabalhadores que recebem salários miseráveis, que não são actualizados há vários anos» e que «são vítimas da precariedade».
Com a intenção de fazer mesmo ouvir a voz dos trabalhadores e expor publicamente a exploração a que são sujeitos, a Fesaht/CGTP-IN e os seus sindicatos do Norte, do Centro, do Sul e do Algarve marcaram presença, esta terça-feira de manhã, à entrada do edifício Pedro Álvares Cabral, onde estão instalados a Fundação do Oriente e o seu museu, no espaço que já foi dos armazéns da Comissão Reguladora do Comércio do Bacalhau e que, neste dia, recebeu patrões do turismo e de sectores correlativos, e também o Presidente da República, o primeiro-ministro e membros do Governo actual e de governos anteriores.
A reunião foi convocada sob o signo de «um ciclo de crescimento notável», que também foi assinalado pelos sindicatos, pela federação e pela CGTP-IN. Foram recordados os números que o Instituto Nacional de Estatística divulgou há duas semanas, que dizem respeito à hotelaria em Julho e retratam aumentos anuais homólogos em hóspedes (10,2 por cento), dormidas (sete por cento), proveitos totais (16,8 por cento), na taxa de ocupação de cama (mais 2,15 pontos percentuais, para 65 por cento) ou no indicador RevPar (o rendimento médio por quarto disponível, que subiu 13,4 por cento, para 63,60 euros).
A Fesaht lembrou que continuam a proliferar hotéis e hostels e que os preços na hotelaria e na restauração não param de subir, havendo regiões onde aumentam 20 por cento num mês.
Para os trabalhadores, no entanto, continua a não haver motivos para festejar, pois a excelente situação das empresas não se reflecte na melhoria das suas condições de trabalho e de vida.
Ao fim da manhã, em conferência de imprensa, os representantes sindicais – a que se juntou o Secretário-geral da CGTP-IN, Arménio Carlos – explicaram que as associações patronais não negoceiam a revisão de tabelas salariais desde 2009, procurando aniquilar direitos que estão reconhecidos na contratação colectiva. As empresas seguem a orientação das cúpulas e negam actualização de salários.
A precariedade de emprego generaliza-se e há já hotéis que praticamente não têm pessoal efectivo. A par do grave prejuízo para os trabalhadores, em permanente instabilidade e impedidos de progredir nas carreiras profissionais, os sindicatos do sector e a CGTP-IN alertam que esta situação põe em causa a qualidade do serviço.
Do Governo foi exigido que intervenha, com os vários instrumentos de que dispõe, para impor o cumprimento da lei e dos contratos colectivos, de modo a que sejam respeitados os direitos dos trabalhadores, em particular o direito à negociação colectiva e a uma justa remuneração do trabalho que cria a riqueza festejada na «cimeira» patronal.
Porto
Também no dia 27, a inauguração da loja interactiva de turismo do Porto (Porto Welcome Center), frente à estação de São Bento, foi acompanhada por um protesto sindical contra a extinção de 39 postos de trabalho pelo Turismo do Porto e Norte de Portugal. A agência Lusa noticiou que, com uma faixa a clamar «Trabalhadores do turismo não são descartáveis», dirigentes e activistas do Sindicato Nacional dos Trabalhadores da Administração Local e Regional (STAL/CGTP-IN) distribuíram um comunicado sobre a situação «dramática» que tem vivido o pessoal do organismo responsável pela gestão e promoção turística da área regional de turismo do Norte. Os funcionários, «pelo menos desde 2012, estão a ser alvo de pressões constantes por parte do presidente da TPNP, Melchior Moreira, para abandonarem os seus postos de trabalho, ameaçando-os constantemente com o envio para a requalificação».