Identificar, corrigir e virar a página
O Parlamento aprovou o projecto de resolução do PCP que recomenda ao Governo a identificação das consequências, em todas as áreas, dos cortes no SNS levados a cabo pelo anterior executivo liderado por Passos Coelho. O diploma obteve o voto favorável, além do seu autor, do PS, PEV, BE e PAN, votando contra o PSD e o CDS.
Sob avaliação estarão essas consequências que no entender da deputada comunista Carla Cruz «estão bem à vista», com origem em cortes que se fizeram sentir de forma aguda no financiamento, no investimento público, na opção de contratar empresas de trabalho temporário para assegurar os serviços de Urgência. Mas também no encerramento de serviços de proximidade, na concentração e fusão de valências hospitalares, bem como na saída em massa de profissionais e na não contratação de profissionais em falta. A política de emagrecimento forçado do SNS manifestou-se ainda de forma nítida na «opção pela desvalorização social e profissional» dos profissionais de saúde, tal como teve repercussões no adiar de consultas e cirurgias programadas ou na ruptura nos serviços de Urgência.
Carla Cruz não deixou de assinalar essa consequência resultante ainda das opções políticas de PSD e CDS que foi a «diminuição e enfraquecimento da capacidade de resposta do SNS, por via da diminuição das camas nos hospitais públicos (enquanto aumentava o número de camas nos hospitais privados), pela transferência da prestação de cuidados do serviço público para os grandes grupos do sector privado, pela não dispensa de medicamentos a doentes crónicos ou pela inoperacionalidade dos meios de emergência.
Consequências sobre a saúde dos portugueses que as bancadas à direita procuraram desvalorizar, como se tornou evidente pela intervenção de Cristóvão Ribeiro (PSD), que negou ter havido «cortes cegos» no SNS, ao mesmo tempo que mascarava os efeitos nefastos da política do anterior governo invocando a redução em dois terços na despesa no SNS alegadamente conseguida por via designadamente da «farmácia», e dos «dispositivos» médicos.
Só que a realidade o que mostra e os profissionais de saúde comprovam é que houve doentes que deixaram de ir às consultas ou que abandonaram tratamentos por ausência de capacidade económica e financeira.
Foi o que disse Carla Cruz, numa segunda intervenção onde reiterou simultaneamente a ideia de que PSD e CDS, na linha do que fizeram nos últimos quatro anos, «ignoram as dificuldades das pessoas no acesso aos cuidados de saúde no SNS».
E disse compreender a oposição daqueles partidos à iniciativa do PCP, vendo nisso um sinal revelador do temor que têm perante tal levantamento que porá a nu as consequências da sua política, designadamente ao nível das «injustiças praticadas».
E porque é «tempo de virar a página», como salientou Carla Cruz, são essas injustiças que urge reparar, o que em sua opinião passa desde logo pelo «reforço dos meios humanos, materiais e financeiros do SNS, para que a resposta às populações seja feita em tempo útil e de qualidade».