A vigésima eleição

Luís Carapinha

A luta de classes vai-se intensificar

A direita comemora o triunfo nas eleições legislativas de 6 de Dezembro na Venezuela. O Presidente Maduro e o Grande Pólo Patriótico (GPP) reconheceram de pronto o resultado anunciado pela autoridade eleitoral, saudando a vigência da Constituição bolivariana de 1999. Coisa que a visceralmente golpista MUD (mesa de unidade democrática), que condensa a reacção venezuelana e os interesses da grande burguesia vassala de Washington, não fez no passado. Pelo contrário. A sua participação no golpe de estado derrotado de 2002 está profusamente documentada, tal como o instigar permanente das campanhas de ódio contra o poder popular. Foi assim nas eleições presidenciais de Abril de 2013, após a morte de Chávez, em que a MUD não reconheceu a vitória de Nicolás Maduro e novamente enveredou pela violência criminosa que custaria a vida a perto de meia centena de venezuelanos. Com a presente eleição, passam 17 anos desde a primeira vitória de Hugo Chávez nas presidenciais venezuelanas, a 6 de Dezembro de 1998. Desde então, na estranha «ditadura» vivida na pátria de Bolívar, como há anos a fio é pintado e matraqueado pela subversão informativa dominante, tiveram lugar 20 eleições nacionais (entre presidenciais, legislativas, regionais e autárquicas, referendos constitucionais e revogatórios, Assembleia Constituinte).

O campo bolivariano saiu vitorioso em 18 dos 20 actos eleitorais. Porém, seria pouco acertado retirar importância ao desaire eleitoral agora sofrido pela revolução venezuelana, primeira derrota em eleições legislativas. Um revés cuja avaliação aturada caberá fazer às forças revolucionárias bolivarianas. Salta à vista que a votação da MUD supera largamente a base social da oligarquia e burguesia venezuelanas. Por outro lado, parte do campo popular que apoia o processo bolivariano absteve-se de votar. As massas têm revelado uma disponibilidade quase incansável de mobilização ao logo destes 16 anos. Contudo, nas urnas acabaram por se expressar os efeitos do desgaste social resultantes da continuada política de chantagem, desestabilização e agressão económica – agravado pela baixa do preço do crude – de que é alvo o poder de Caracas por parte do imperialismo. O que não obsta à necessidade de encarar os sérios problemas, limitações e deficiências no plano interno.

As transformações iniciadas com a Revolução Bolivariana e os objectivos a que se propõe confrontaram-se sempre com enormes dificuldades e resistências. As distorções profundas de uma mono-economia assente na renda petrolífera constitui uma limitação central, que não é possível ultrapassar de uma penada, apesar dos esforços empregues. Foi percorrido um caminho singular de acumulação e constituição de forças, em que durante a viagem e sob o ímpeto do protagonismo das massas historicamente excluídas, foram sendo engendrados os instrumentos políticos da mudança bolivariana… Assim se moldou a união «cívico-militar», se constituiu mais tarde o PSUV e o GPP, integrado pelo PCV. Em 1998 poucos julgariam alcançáveis em tão pouco tempo as conquistas políticas, económicas, sociais e culturais concretizadas na Venezuela, que produziram sulcos profundos no país e impulsionaram a mudança progressista que envolveu o sub-continente. Contudo, a revolução bolivariana é um processo inacabado, a que se apresentam contradições e desafios enormes, incluindo no plano da organização, acção convergente e unidade dos trabalhadores e das massas.

Depois da vitória neoliberal nas presidenciais de 22 de Novembro na Argentina (e do retomar da ofensiva golpista no Brasil), o resultado das eleições de dia 6 vem dar mais alento à contra-ofensiva geral do imperialismo na América Latina. Uma coisa é certa: a luta de classes vai-se intensificar. Está em causa, não apenas, o destino dos processos progressistas e revolucionárias, mas também da nova arquitectura de cooperação regional, que é parte inseparável do processo de rearrumação de forças que se desenha no mundo.




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