Os citadores
O movimento comunista sempre foi atreito a uma praga que, não lhe sendo própria, aqui provoca estragos particularmente graves. Falo dos citadores, daqueles que substituíram a vontade de analisar o mundo em que vivem pelo exercício da citação, daqueles que citam não para recordar a origem de uma ideia ou proposta concreta mas para lhe colocar o peso do dogma, daqueles que citam não para homenagear quem antes escreveu melhor o que hoje se quer ainda dizer, mas sim para lhe colocar o carimbo de uma autoridade superior e inquestionável.
A facilidade de tal praga se reproduzir no nosso seio deve-se à importância que atribuímos à teoria e ao facto de os comunistas nutrirem um imenso, justo e saudável respeito por aqueles que rasgaram as fronteiras do pensamento e colocaram os pilares da ideologia que ilumina as nossas vidas.
Vem tudo isto a propósito de Engels, e do 5 de Agosto de 1895 que levou Lénine a citar: «Que chama do espírito se apagou, que coração deixou de bater!». Passaram-se 120 anos sobre a morte de Engels, e lê-lo – na obra que deixou assinada com o seu nome, na que assinou com Marx ou na que conservou apenas o nome deste – continua a ser refrescante, estimulante e indispensável.
E porque, particularmente no que aos clássicos do marxismo-leninismo diz respeito, uma citação nunca pode ser um ponto final ou um ponto de exclamação, é sempre um convite à leitura de toda a riqueza da obra citada, deixo-vos com duas citações particularmente actuais de Engels, de «Os princípios básicos do comunismo» e do «Programa dos refugiados blanquistas da Comuna»: «A democracia seria totalmente inútil para o proletariado se ela não fosse utilizada imediatamente como meio para a obtenção de outras medidas que ataquem directamente a propriedade privada e assegurem a existência do proletariado»; «Os comunistas (...), através de todas as estações intermediárias e compromissos – que não são criados por eles mas pelo desenvolvimento histórico – entrevêem claramente o objectivo final: a abolição das classes, a edificação de uma sociedade em que não exista mais qualquer propriedade privada da terra e dos meios de produção».