Conto do vigário

Anabela Fino

Sem dúvida inspirado no santo protector Cavaco Silva que ao longo dos últimos quatro anos nunca o desamparou, o ainda primeiro-ministro e cada vez mais candidato Passos Coelho, acolitado pelos seus pares de partido e de coligação, anda numa roda viva a ver se consegue que o País real – que vai a votos – se deixe iludir com o conto de fadas do nós por cá todos bem graças aos salvadores da Pátria.

Tal como Cavaco, que deitando mão aos seus vastos recursos de economista conseguiu chegar à brilhante conclusão, numa complexa equação com várias incógnitas, que 19 menos um é igual a 18, também Passos Coelho decidiu lançar mão do mágico número 18 para dar conta nas redes sociais das maravilhas operadas pelo seu governo. Diz quem sabe que a palavra de ordem é só falar de futuro, reduzindo o passado de quatro anos de desgraça a 18 – dezoito – indicadores «positivos» que vão desde o nível de confiança dos portugueses, por acaso num nível negativo superior ao registado em 2002, ao número de pessoas isentas de taxas moderadoras, quase mais um milhão e meio a dar bem a dimensão como lavra a miséria no País. É o espectáculo de ilusionismo à moda da Lapa e do Largo do Caldas.

Porque o negócio é números – neste caso para contabilizar votos – Passos, mais uma vez seguindo o exemplo de Cavaco e da sua excelentíssima cara metade que têm via aberta com a senhora de Fátima, não se fia nos terrenos poderes ao seu serviço e vai avisando as hostes, anteontem reunidas em jantar de fim de legislatura, que «só por milagre» o PSD manterá o número de deputados nas próximas eleições legislativas. Seria útil o INE apurar o eventual aumento de compra de velas, para memória futura. Recomendando «prudência» aos ainda deputados na sua missão de caça ao voto, o primeiro-ministro logo deu a medida das cautelas a tomar proclamando que os quatro anos do seu governo ficarão «na história do País pelas melhores razões». Estava dado o mote no preciso dia em que o Banco de Portugal fez saber que a dívida pública portuguesa atingiu em Maio os 229 204 milhões de euros, mais 3700 milhões em relação a Abril.

Conto para crianças, qual quê! Isto é mesmo o conto do vigário e ainda agora a procissão vai no adro.

 



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