Missão cumprida

João Frazão

Em cima da hora, é ainda possível duas palavras sobre a entrevista de Paulo Portas na terça-feira a um canal de televisão.

«Missão cumprida», pavoneia-se o pavão, irrevogavelmente a borrifar-se para as consequências da missão de que, pelos vistos, se incumbiu, mas que o povo português sentiu bem na pele.

«Missão cumprida», afirma o papagaio, escondendo que essa missão incluiu a destruição de mais de meio milhão de empregos e a passagem de mais de 800 mil portugueses para a condição de oficialmente pobres.

«Missão cumprida», diz o aldrabão, sem corar por um momento, ainda que essa missão tenha implicado o encerramento ou o desmantelamento de centenas de serviços públicos, com o despedimento de milhares de trabalhadores, implicando novas vagas de abandono das zonas rurais onde o Estado já só chega pela via da repressão e dos impostos, contribuindo para o mais de meio milhão de pessoas que emigraram, numa sangria sem nome.

«Missão cumprida», atira o camaleão, que espera que ninguém se lembre que essa missão degradou sem paralelo o Serviço Nacional de Saúde, que as populações sentiram nas condições de acesso e no bolso, sobremaneira.

«Missão cumprida», grita o artista – que em tempo de eleições se há-de fantasiar de agricultor, de contribuinte e do diabo a sete, para apanhar uns incautos – fingindo que essa missão não significou o afastamento compulsivo de milhares de pequenos agricultores da produção e, por outro lado, o maior assalto de que há memória aos bolsos dos tais contribuintes que dizia defender.

«Missão cumprida», trauteia o sem vergonha, e nós pasmamos por sabermos que tal missão significou para os reformados e pensionistas do País, bem como para a generalidade dos trabalhadores portugueses, um brutal corte nos seus rendimentos e um violento ataque aso seus direitos.

A poucos meses das eleições podemos falar de missões cumpridas. Por um lado, a verdadeira missão que Portas e Passos, ao serviço dos grandes grupos económicos e dos interesses das multinacionais, assumiram, de empobrecer o povo e agravar a exploração dos trabalhadores e, por outro lado, a missão de os enfrentar e de, em última análise, os correr daqui para fora e que acontecerá já em fim de Setembro ou Outubro, com uma grande votação na CDU.

 



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