Não pára a luta pela TAP pública
As organizações dos trabalhadores da TAP deixaram claro que o anúncio do candidato premiado pelo Governo não encerra este caso e justifica prosseguir e intensificar a luta contra a privatização.
O «feliz contemplado» foi escolhido em apenas dois dias úteis
«Nem na roleta do casino se ganha prémios tão rapidamente», ironizou o Sindicato dos Trabalhadores da Aviação e Aeroportos, num breve comunicado que divulgou no dia 11, logo que foi conhecida a decisão do Conselho de Ministros para entrega de 61 por cento do capital social do Grupo TAP ao consórcio Gateway e não a Germán Efromovitch. «Depois do escândalo que foi, em 15 de Maio, a escolha em apenas três dias das propostas que passavam à segunda fase, fomos agora violentados por mais esta fraude de, em apenas dois dias úteis, o Conselho de Administração da TAP, a Parpública, os assessores e consultores vários, os escritórios de advogados e o Governo, conseguirem descortinar, decidir e escolher o feliz contemplado com mais uma empresa pública, por sinal a última grande empresa nacional ainda não entregue ao capital estrangeiro», protestou o Sitava.
O sindicato da Fectrans/CGTP-IN confia que «os trabalhadores do Grupo TAP e o povo português não vão baixar os braços» e declarou que «irá participar em todas as iniciativas contra a privatização que vierem a ser desencadeadas no seio da empresa e também no exterior, de modo a continuar a dar visibilidade a esta luta que, estamos convictos, não é uma causa perdida».
«Enquanto houver TAP, há esperança» foi a afirmação destacada no comunicado da célula do PCP na TAP e SPdH, emitido no dia 11. Os trabalhadores comunistas afirmam que «a privatização conduzirá à destruição da TAP, mas até isso acontecer, o povo português tem a possibilidade de anular a privatização ou renacionalizar».
A propósito da pressa demonstrada pelo Governo, a célula do Partido observa que ela «acaba por ser a confirmação de que todo este processo é uma fantochada e que as decisões são tomadas tendo em conta negociatas à margem da lei e das instituições». Depois de responsabilizar a maioria PSD/CDS por não ter permitido que a Assembleia da República «impedisse este crime», o Partido lembra que ela «contou ainda, como é costume, com as hesitações e cumplicidades do PS». No Parlamento que sair das próximas eleições, haverá nova oportunidade de travar esta privatização «e o PCP cumprirá o compromisso, que aqui expressamos, de apresentar e colocar à votação uma iniciativa legislativa nesse sentido», garante a célula comunista, apelando a que os trabalhadores «reforcem as suas organizações de classe, incluindo o seu Partido».
Ao fim da manhã de dia 12, a Comissão de Trabalhadores da TAP reafirmou que «a luta contra a privatização continua e deve até ser intensificada, nesta nova fase». Condenando a campanha de propaganda e mentira em torno das verbas e outras condições referidas pelo Governo, assinala-se que os documentos deste «negócio nada claro» foram «escondidos desta Comissão de Trabalhadores, e não só, à margem da lei e da Constituição». Por fim, é feito um apelo à participação massiva no plenário geral de trabalhadores que, em coordenação com a CT da SPdH, foi convocado para hoje, dia 18, às 15 horas.
«Independentemente das ameaças e nuvens escuras» de hoje, «acreditamos que a força dos trabalhadores vai ser determinante para impedir esta tragédia», afirmou Arménio Carlos, na tarde de dia 12, sublinhando que «nada está perdido». Em conferência de imprensa, o Secretário-geral da CGTP-IN, acompanhado de dirigentes do Sitava e da Federação dos Sindicatos de Transportes e Comunicações, apontou diversas contradições e incongruências nas posições do Governo desde o início do processo de privatização da TAP e reafirmou que a Intersindical repudia a decisão anunciada na véspera e tudo fará para evitar que se conclua este «negócio ruinoso».
Arménio Carlos recordou, por exemplo, que há alguns anos a TAP comprou por 140 milhões de euros a Portugália, que tinha 16 aviões, e o Governo quer agora vender por 10 milhões a TAP, que tem 76 aviões e continua a ser a maior exportadora nacional. Assinalou ainda que o Executivo recusa assumir a capitalização da TAP, mas já aceitou financiar a Metro do Porto e a sua gestão privada em 500 milhões de euros, nos próximos dez anos; por outro lado, tem recusado pagar indemnizações compensatórias em valores adequados à STCP, à Carris e ao Metropolitano de Lisboa, mas está disposto a financiar a gestão privada destas empresas com 150 milhões de euros por ano, valor a que acresce parte das receitas.
«Azul» escuro
O consórcio escolhido pelo Governo tem à frente David Neeleman, com três fundos de investimento accionistas da transportadora aérea Azul, surgindo o Grupo Barraqueiro como parceiro para contornar exigências da legislação da União Europeia.
A CT da TAP destacou alguns dados sobre o americano-brasileiro que não pode ser líder formal neste negócio:
– em 2007, foi despedido do cargo de CEO da JetBlue, que o próprio Neeleman fundou, depois de «irregularidades operacionais» que prejudicaram a imagem da companhia low-cost e os seus resultados;
– no ano seguinte, fundou a Azul, que «ainda este mês adiou a terceira tentativa de disponibilizar acções em bolsa para obter fundos para adquirir aeronaves, pagamento de dívidas e fundo de maneio».