Ao que vem e como está

Jorge Cordeiro

Sempre que os interesses de PSD e CDS e do seu Governo estão ameaçados, Cavaco Silva faz prova de estar vivo. É o caso presente. Perante a possível consideração de a data das eleições vir a ser antecipada, Cavaco Silva não só deixou de fingir de morto como deu cor de si, não por facebook, mas de viva voz. Aos que se aprestam para esgrimir desde já aquele demolidor argumento de que para dizer o que disse mais valia ter ficado calado, dado o labiríntico percurso discursivo presente na entrevista dada, se deve invocar em abono do entrevistado que não se pode de uma só vez querer que dê cor de si e que saia tudo direitinho. E ainda que mesmo a espaços, Cavaco Silva disse o suficiente para se perceber ao que vem e como está nas funções que exerce.

Cavaco deixa claro o que o País já sabia – a de que estando em causa o Governo que protege, dali não se espere nada e «ponto final». Fiel ao princípio «primeiro os amigos, depois o País» Cavaco Silva, confrontado com a admissão que ele próprio assumiu dessa antecipação no quadro do ambicionado «compromisso de salvação nacional», deixa claro o que o moveu: naquele caso tratava-se de salvar o Governo e a política de direita. Resolvido o problema, devolvida a estabilidade ao seu Governo e à sua maioria, revogado que ficou o irrevogável, retomadas as condições para o saque aos trabalhadores prosseguir, restabelecida ficou a boa ordem pela qual zela. À falta de melhor argumento, Cavaco Silva acusa os que de há muito reclamam eleições antecipadas de desconhecerem a lei eleitoral. Dir-se-ia, e desta vez com inteira razão e fundamento, que se há alguém que faz de conta que não leu ou não conhece a lei fundamental do País é precisamente quem jurou cumpri-la e fazê-la cumprir. Na verdade, há muito que a Assembleia deveria ter sido dissolvida e as eleições convocadas. Não pela razões técnicas que PS e outros esgrimem em função de prazos e condições de elaboração do Orçamento, mas porque perante um Governo e uma maioria que agem à margem da lei, em confronto com a Constituição da República, pondo em causa o regular funcionamento das instituições e desgraçando a vida dos portugueses e o futuro do País, não restaria a um Presidente que quisesse cumprir integralmente as suas funções outra decisão que não fosse aquela.




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