Mentiras e condecorações

Ângelo Alves

Traem o interesse nacional e no fim... condecoram-se uns aos outros

Os acontecimentos das últimas semanas confirmam uma situação internacional marcada pela instabilidade, insegurança e pela acumulação de perigos. A ofensiva do imperialismo torna-se cada vez mais violenta e acompanhada por campanhas de desestabilização, desinformação e mentira. A situação exige dos estados como Portugal um posicionamento independente e soberano, que se demarque da lógica de confronto e manipulação das grandes potências e da NATO. Infelizmente a realidade da política externa portuguesa evoluiu no sentido contrário. Os exemplos sucedem-se: perante a decisão da Suécia de reconhecer o Estado da Palestina e numa altura em que Israel desenvolve novas provocações voltando a encerrar a Faixa de Gaza, o MNE português escolheu o tom da hipocrisia para negar esse direito ao povo palestiniano. Nessa mesma ocasião a NATO decidiu lançar uma campanha que fez regressar a célebre frase da propaganda imperialista da «guerra fria»: «Os russos vêm aí!». Foram os ministérios dos Negócios Estrangeiros e da Defesa que protagonizaram e estiveram na origem das notícias de que aviões russos tinham penetrado no espaço aéreo nacional ou de que um navio hidrográfico (!) russo tinha invadido mares portugueses. Ora a realidade é que os aviões russos voaram em espaço aéreo internacional e o «perigoso» navio hidrográfico navegava na nossa ZEE mas em águas internacionais. A realidade é que os F16 portugueses se limitaram a acompanhar os aviões russos no seu voo próximo do nosso Espaço Aéreo e que a Marinha portuguesa apenas identificou e acompanhou o navio russo.

Trata-se de uma postura de total irresponsabilidade por parte do Governo português, de grande gravidade, e que só se explica pela sua total submissão à NATO e suas ordens, submissão bem expressa aliás nas intenções de Aguiar Branco de aumentar as despesas militares na rubrica destinada aos «compromissos com a NATO». Submissão que está também na origem da participação do ministro Machete na campanha de paranoia internacional em torno dos «jihadistas» e que pode levar o Governo a avançar com novas medidas securitárias atentatórias dos direitos, liberdades e garantias. Irresponsabilidade que não toca apenas a participação em campanhas de desinformação da NATO mas que assume contornos quase inacreditáveis quando Portugal se coloca em bicos de pés perorando sobre a necessidade de acelerar as negociações do Tratado Transatlântico de Comércio e Investimento (TTIP), nomeadamente defendendo a criação dos Tribunais Arbitrais, ou seja, os «paraísos legais» que funcionarão como autênticos rolos compressores das soberanias nacionais e dos direitos dos trabalhadores.

Não espanta portanto que o Governo português nada diga sobre o escândalo do envolvimento de Juncker em esquemas de roubo fiscal de milhares de milhões de euros. E não espanta também a condecoração de Durão Barroso por Cavaco Silva por «serviços a Portugal e à União Europeia». Uma condecoração a um homem que, é bom lembrá-lo, participou nas mentiras que levaram à guerra do Iraque (a cimeira dos Açores); que abandonou o governo em 2004 para assumir a presidência da Comissão Europeia; que esteve aos comandos da troika que destruiu, com o Governo do seu Partido e o acordo do PS, a economia e as vidas dos portugueses e que, entretanto prepara a sua tournée mundial num autêntico circo de ilusionismo e manipulação sobre a real situação na União Europeia. Não espanta porque o que os une a todos é uma mesma visão de classe, a favor dos poderosos e contra os trabalhadores e os povos. E é por isso que mentem, cometem aparentes irresponsabilidades, traem o interesse nacional e no fim... condecoram-se uns aos outros.




Mais artigos de: Opinião

Agendas

O PS de António Costa, depois da farsa das «primárias», a chamada eleição do candidato a primeiro-ministro, prepara-se agora para novo embuste com a sua moção ao congresso que contém uma proposta de «agenda para a década de 2015-2024» assente...

Ponto Final

Cavaco Presidente deu uma entrevista ao Expresso, com três ideias centrais: não haverá antecipação de eleições; o próximo governo tem de ser de maioria; são necessários entendimentos. É esta a síntese do pensamento político do...

Ao que vem e como está

Sempre que os interesses de PSD e CDS e do seu Governo estão ameaçados, Cavaco Silva faz prova de estar vivo. É o caso presente. Perante a possível consideração de a data das eleições vir a ser antecipada, Cavaco Silva não só deixou de fingir de morto...

O desplante

Ricardo Araújo Pereira, no Governo Sombra, acompanhou à guitarra o discurso debitado na AR pelo ministro Pires de Lima, onde quis usar o sarcasmo num tom arrastado e vocalizações de circo, que os incautos espectadores se viram na eminência de atribuir a uns bons copázios....

Desporto para todos

Sucedem-se os bons resultados, os recordes superados, os títulos, as medalhas. Atletas e equipas nacionais, do ténis de mesa ao surf, são notícia pelos feitos desportivos que nos chegam através da comunicação social. Invariavelmente, governantes, primeiro-ministro, secretário de Estado, Presidente da República, tiram a fotografia da praxe e desdobram-se em declarações de circunstância. E assim se procura criar a ilusão de que as políticas desportivas do País estão a dar frutos.