O desplante
Ricardo Araújo Pereira, no Governo Sombra, acompanhou à guitarra o discurso debitado na AR pelo ministro Pires de Lima, onde quis usar o sarcasmo num tom arrastado e vocalizações de circo, que os incautos espectadores se viram na eminência de atribuir a uns bons copázios.
Certeiro como em geral costuma ser, o humorista rapou de uma guitarra e pôs-se a fadistar a fala inenarrável do novel ministro – e exibiu o fundamental: aquilo, se era alguma coisa, só podia ser faduncho.
Nos últimos tempos, o empresário cervejeiro anda muito feliz com a sua ministerial figura, fazendo declarações em chorrilho.
Mas também o chanceler Coelho anda numa roda-viva de intervenções proferidas em inaugurações remotas, reuniões engendradas pelo PSD ou visitas a chafaricas «de sucesso», sempre com as televisões atrás e muitos «directos» para que o País não perca pitada do que o chanceler diz, que é sempre o mesmo – os intermináveis «sucessos» do seu Governo e as abundantes mentiras para os justificar.
De Paulo Portas nem vale a pena averiguar: vive em permanente estado de pose e fala sempre em pose de Estado. Ultimamente tem martelado umas décimas nas exportações e no desemprego, bombástico e (valha-nos isso) com a maioria esmagadora dos portugueses a não acreditar ou a não o levar a sério.
Agora que estão em «modo eleitoral», esta gente procura impingir-se ao País como «os que enfrentaram a dívida» (embora ela tenha aumentado exponencialmente) e, ao contrário do que afirmaram no início – que o programa da troika «era o seu» e queriam mesmo «ir além da troika» –, agora lambuzam-se em lágrimas de crocodilo para ilustrar que «nenhum governo tem gosto em cortar salários», mas é preciso «manter os sacrifícios» para «pôr as contas públicas em ordem», almejando, com notório desfasamento da realidade e maciça idiotia, que o eleitorado os «compreenda» e de novo os apoie.
A sua insensibilidade social é extrema e movimentam-se como se não houvesse um povo martirizado pela devastação da sua política. Para além das reduções brutais dos salários e pensões e de uma carga fiscal esmagadora, infligiram estragos de penosa recuperação, como a perda da confiança no Estado, a utilização das Finanças para uma acção rapace e abusiva, transformando multas em coimas para garantir a cobrança multiplicada, desacreditaram completamente a Escola pública, a carreira docente e o Ensino democrático («tarefa», aliás, começada pelo governo Sócrates), desinvestiram fortemente na Saúde, no Ensino, na Segurança Social e em toda a máquina do Estado através de despedimentos em massa e a única reforma que perpetraram foi a do Código do Trabalho para desregular completamente os direitos dos trabalhadores, além de entregarem sectores estratégicos da economia à gula dos privados.
Com tudo isto, ainda têm o desplante de sonhar com «vitórias»...