Abre os olhos!
Já terão visto a última abjecção fermentada nas meninges de algum servente da ideologia dominante, exposta em todas as estações de Metro e autocarros de Lisboa: um cartaz onde se destacam dois olhos azuis, e a frase «Abra os olhos e combata a fraude», logo explicada «A falta de validações pode sair-lhe caro: menos carreiras, menos comboios, maior tempo de espera, degradação do serviço».
Trata-se, antes de mais, de um mecanismo para culpabilizar as vítimas. O Governo decretou que o passe de Metro subisse de 19 para 40 Euros? O Governo decretou a redução de carreiras e o alargamento dos tempos de espera? O Governo impôs uma evidente e notória degradação do serviço? A culpa é tua! Tua e daqueles como tu. Que não pagam ou são cúmplices daqueles que não pagam! Não tens dinheiro para pagar? Pior ainda! Mais culpado és.
«Não olhes para quem te oprime! É ao teu lado que está o inimigo.» Este poderia ser o lema da enorme bufaria em que pretendem transformar este nosso País! O Jardim Gonçalves livrou-se de pagar um milhão de euros? Que importa! Pede é a factura da bica para obrigar o Sr. Zé a pagar IVA, e IRC, e a derrama. O Metro pagou mais 870 milhões de euros em swaps ao Santader e ao BES? Que importa! Olha mas é para aquele tipo a saltar a cancela, está a roubar um euro. Corre atrás dele!
Num país onde o desemprego ultrapassou os 20%, quem pode achar estranho que aumente o número de pessoas a utilizar os transportes públicos sem pagar? E até o mais estúpido neoliberal sabe que não é com cartazes que se resolve o desemprego. Não é, nem a tal se destinam os cartazes.
Cartazes que têm ainda um último e lamentável objectivo: tentar disfarçar as razões porque as empresa que pagaram esta peça de propaganda, a Carris e o Metro, perderam, desde que este Governo tomou posse, respectivamente 32% e 24% dos passageiros, e ainda assim aumentaram as receitas!.
É caso para dizer, abre os olhos, sim, mas para combater este Governo e esta ideologia. E de olhos bem abertos, promove a unidade de todos os utentes dos transportes contra o inimigo comum: o grande capital, o seu governo, a sua alternante oposição e todos os seus propagandistas.