O bando

Henrique Custódio

O Governo já nem «corre atrás do prejuízo» (como gostam de dizer alguns comentadores): age como calha e nunca lhe calha agir como deve (se é que sabe o que isso é). Quando «corria atrás do prejuízo» enjorcava explicações a posteriori, emitia desmentidos ou desmentia-se entre si, com ministros a dizer uma coisa e o seu contrário. Agora há uma cacofonia já não apenas de governantes a desmentirem-se uns aos outros, mas do «triunvirato» (que não o latino, tá bem de ver) atamancado entre Belém e S. Bento, onde Cavaco Silva manqueja despudoradamente com Pedro e Paulo.

A última exibição do trio decorreu há dias, com Cavaco a considerar «preferível» sair do resgate com um «programa cautelar», enquanto Portas proclama que o nosso «sangue celta» nos vai levar para uma «saída à irlandesa» certinha com o relógio dele, e Passos, numa sangria desatada que já lhe promete vitória nas legislativas, diz costumeiramente sim e não, conforme o dia.

Cavaco Silva decretou ainda que «fez as contas» e Portugal só deixará de «ser vigiado pelas instâncias internacionais» em 2035, ou seja... daqui a 20 anos.

Inacreditável, esta visão do futuro do País debitada por um Presidente da República. Mas a História há-de acertar as contas desta presidência lamentável.

O que nenhum diz é que, com «cautelar» ou sem «cautelar», a dívida acumulada (e nos termos em que no-la impõem) continuará impagável e sempre crescente se o País não rejeitar, frontalmente, as condições leoninas e espoliadoras com que a clique de Bruxelas nos está a empurrar para os modelos sócio-económicos do século XIX.

«Está escrito nas estrelas» (como dizia o outro) que o País vai ser forçado a enfrentar Bruxelas, se quiser sobreviver.

A única incógnita que se perfila é a do tempo que levará a efectuar-se esse enfrentamento, na certeza de que quanto mais demorar, pior o País estará.

O que nos recentra no bando que por aí anda pastoreado por Pedro e Paulo e tutelado por Cavaco.

Bajuladores e servis por natureza, nunca lhes ocorreu defender os interesses do Povo e do País nas «negociações» com a troika. Aliás, Passos disse logo tudo ao declarar as imposições de Bruxelas como «um programa de governo», que eles «iriam ultrapassar».

E ultrapassaram, conseguindo em cerca de três anos acrescentar meio milhão de desempregados ao milhão pré-existente e desregulamentar profundamente o Código do Trabalho. A desregulamentação do CT foi, aliás, a sua única «reforma», cumprindo o velho desejo do patronato.

O resto – que é imenso – centrou-se no esbulho sucessivo de salários, reformas, pensões, subsídios e postos de trabalho, atacando sempre em flagrante inconstitucionalidade e ferindo seriamente a Saúde, o Ensino e a Segurança Social e fazendo alastrar a miséria efectiva a uma velocidade e extensão nunca vistas, no regime democrático.

Há que pôr este bando na rua, e depressa...




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