A minha vida não cabe nos discursos deles

João Frazão

Por estes dias milhões assistem, estupefactos, aos discursos deles.

Palavras de conforto e caridade para os pobrezinhos, palavras de fé num futuro que já não é muito longínquo, pois o virar de ano está já aí e traz, com ele, todas as soluções para os dias de aperto que, ao longo do ano que agora acaba, desmentiram os mesmíssimos discursos do ano passado.

Anúncios de bem-aventuranças para todos os que souberem compreender as linhas tortas por que se desenha uma política que nos anunciam como o caminho da luz, mas que a realidade teima em não confirmar.

Em cenários sempre muito bem cuidados, eles dizem-nos, pois, que o ano foi difícil, mas que a luz ao fundo do túnel já se começa a ver, e agora já só é necessário que aceitemos este «restinho» de sacrifícios (os que no Orçamento do Estado prosseguem o caminho do desastre) e, claro está, mais os sacrifícios que, em consequência lógica (que eu nunca entendi, mas devo ser eu que sou de fraco entendimento) do bom desempenho da economia e dos indicadores todos, nos querem impor, num tal de programa cautelar que, ainda que desmintam, andam já a cozinhar nas costas do povo.

Com ar compungido eles falam-nos da preocupação social e da prioridade aos que mais sofrem, culpando-os, vejam bem, de não estarmos melhor, pois para fazer face aos subsídios de desemprego e essas coisas dos apoios sociais, foi necessário alocar meios que tanta falta faziam aos mercados.

Há ainda milhões que os vêem e ouvem atónitos, sem querer acreditar que a sua vida de desemprego, de fome, de miséria, do filho que teve que emigrar, do neto a quem é preciso ajudar a pagar as contas, dos remédios que não se podem comprar, da conta da luz que este mês não se vai pagar, da Universidade de que se teve de desistir, das filhoses que este ano vão ser mais curtas, da tristeza do presente e da insegurança no futuro, não encaixa nessa realidade de luzes e sonhos que eles, ao serviço dos poderosos, nos querem vender.

Mas há também os que nos falam de confiança. Confiança porque sabem que a esperança no ano novo que aí vem cresce todos os dias em mais um homem, em mais uma mulher, que passam da estupefacção à revolta e da revolta à luta por um futuro melhor.



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