Sorefame

Manuel Gouveia

Quem circula na CP ou no Metro de Lisboa encontra umas placas que a alguns já pouco dizem: «Produzido na Sorefame». É triste, mas «normal», que haja quem não saiba ou tenha esquecido que em Portugal, até 2004, até há 10 anos, produzíamos material circulante, e que toda a frota do Metro de Lisboa e a maioria da CP Lisboa é «made in Portugal».

Mas importa lembrar. E lembrar tudo. Por exemplo, que em 2005, quando os trabalhadores, o seu sindicato e o seu Partido ainda resistiam à destruição, foram cercados pela polícia de intervenção às ordens de um ministro da Administração Interna recém-empossado chamado António Costa, para possibilitar a retirada de equipamento para o estrangeiro. Ou lembrar como a venda da Sorefame às multinacionais foi apresentada como uma inevitabilidade que levaria à sua modernização e afirmação, e como as multinacionais, assegurado o mercado nacional, a liquidaram sem dó nem piedade. Ou lembrar como as directivas europeias serviam de desculpa para que os sucessivos governos começassem a recusar trabalho à Sorefame e fossem comprando às multinacionais alemãs e francesas, alimentando ainda a dívida externa. Ou lembrar como as tretas ideológicas da livre-concorrência serviram para alargar a Portugal o monopólio das grandes multinacionais. Ou lembrar os milhares de postos de trabalho directos e indirectos destruídos. Ou lembrar como teria sido fácil a um governo patriótico manter a empresa a funcionar, e até fazê-la crescer, bastando para ela canalizar todas as necessidades nacionais de construção de material circulante.

A Sorefame, orgulho da cidade da Amadora e de Portugal, está destruída. Foi destruída pela contra-revolução portuguesa, e só será reconstruída – mesmo que com outro nome, mesmo que noutra cidade – por um novo salto revolucionário. Viverá para sempre nos corações dos seus bravos trabalhadores e dos homens e mulheres que a defenderam com um palavra de ordem que o futuro viria a carregar de razão «A Sorefame faz falta ao País!».

Que o seu exemplo nos dê ainda mais forças para as lutas em defesa dos Estaleiros de Viana e da TAP, cuja privatização e sequente destruição estão na agenda do grande capital para 2014.   



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